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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Acendei em nós o Círio da Fé!

 O Reino dos Céus é semelhante ao tesouro escondido num campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende tudo o que possui e compra aquele campo” (Mt 13, 44)


A palavra “Círio” remete à uma grande vela - Círio pascal – ou, uma procissão luminosa em que se carregam velas. Para os paraenses, o Círio remete à grande procissão religiosa em que os devotos de Nossa Senhora de Nazaré expressam todo o seu amor por sua Mãe do Céu. Este ano, o Círio é vivido de modo diferente, sim, teremos o Círio, sim. Não virtual, mas real! No entanto, parece ser um sinal o fato de vivermos grandes momentos da nossa fé de modo virtual, quando o jovem Carlo Acutis é beatificado, grande evangelizador que usava a Internet como um meio de propagar o Reino de Deus. A sua pureza e profundo amor por Deus e por Nossa Senhora é uma luz para a nossa vida. A santidade é possível para os que a desejarem! “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto” (Mt 7,7).

A Oração do Círio diz assim: “Pai eterno, Vós nos destes de presente a Virgem de Nazaré, Mãe de Jesus Cristo, Mãe da Igreja e nossa Mãe. Unidos a Maria, pedimos com confiança: envolvei-nos com laços de amizade e com cordas de amor, trazei-nos para perto de vós, de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Acendei, ó Pai, em nossos corações, o Círio da Fé, da Esperança e da Caridade (...)”. De fato, o último presente de Jesus para nós do alto da Cruz, foi aquele que nós em nossa natureza humana, tão frágil, talvez mais precisasse: uma mãe, a Sua própria Mãe, nossa Mãe. E, sob a égide dessa grande defensora que é a Virgem Maria, cada um de nós pode elevar o coração ao alto e agradecer tão grande dom, sermos filhos de Deus e filhos de Maria. Cristãos, católicos e paraenses. Queiramos ou não, e que todos queiram! Nascemos sob a proteção da Virgem, e por isso nosso coração se enche de amor, ternura, afeto ao falar da nossa querida Mãe. Enfrentamos uma grande tribulação, e é um período ainda de muita dificuldade, e é neste estado em que somos chamados a não irmos a Emaús, mas permanecermos em Jerusalém (Lc 24, 13-35). Permanecemos, mas não sós. Unidos à Maria, no Cenáculo do seu coração, que se expande e carrega junto de si todas as nossas dores, assim como carregou as dores do Seu Filho chagado, juntos esperamos a libertação, que já vem para quem soube ressignificar a vida, em unidade na família, com maior amor aos sacramentos, à Igreja, em permanente oração. Pedimos ao Pai “envolvei-nos com laços de amizade e com cordas de amor”, e o Espírito nos fala neste tempo pelo vigário de Cristo, o Papa Francisco, que quis anunciar ao mundo que sejamos Fratelli Tutti, ou seja, todos irmãos! Se os fiéis não estão nas ruas, mas com os seus corações acesos pela Fé, Esperança e Caridade, estão todos unidos e é assim que deve ser sempre! Todos irmãos, faz parte do ser católico, o olhar atento ao próximo, o silenciar, o perdoar e o entregar tudo à Deus!

São Luís Maria Grignion de Montfort nos diz que Deus reuniu todas as graças, tesouros e os seus bens e chamou de Maria. Ela é como este tesouro escondido no campo, onde tudo que o mundo nos oferece empalidece ante à beleza, magnificência, humildade, santidade desta que é a obra-prima de Deus, por isso vendemos tudo e compramos esse campo onde podemos repousar nossas dores, no seu Imaculado Coração encontramos refúgio e como crianças pequenas balbuciamos com confiança: Mãe!

            Exultando a Deus, façamos das palavras de Maria, as nossas: “depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias (Lc 1,52-53).” Grande graça foi para tantos católicos que participaram das peregrinações de Nossa Senhora de Nazaré e puderam rezar a Ladainha da Humildade, para alguns foi uma grata novidade (mais um dos tesouros do catolicismo), oração atribuída ao Servo de Deus, o cardeal Merry Del Val. É esta a novidade evangélica que Maria no seu cântico quis nos ressaltar, foi isso que o jovem beato Carlo Acutis viveu, e todos os Santos com eles! O Caminho de Jesus é este: o fazer da nossa vontade, a vontade de Deus, abaixar-se e deixar que Ele nos molde. Façamos e deixemos que se faça do nosso coração, terra fecunda para receber as graças de Deus. Feliz Círio a todos! E viva Nossa Senhora de Aparecida! Encerramos rezando Ave Maria.

domingo, 13 de setembro de 2020

Como o homem é, assim será seu amigo

 


"Quem teme o Senhor terá também uma excelente amizade, pois seu amigo lhe será semelhante."

Eclesiástico 6, 17

            O sentido mais próprio, por assim dizer, desta passagem do fantástico livro do Eclesiástico é que Deus recompensa o justo com amigos justos também. Mas não é este o sentido do qual vamos falar hoje em nossa pequena reflexão. Queremos falar, na verdade, sobre a amizade como instrumento de Deus para o justo beneficiar seu próximo. Assim, falaremos sobre a tranquilidade que podemos ter em relação ao nosso testemunho no meio do mundo através das amizades e sobre a responsabilidade que temos de alcançar o máximo grau de perfeição possível, a fim de transbordar aos que estão à nossa volta o Amor que habita em nós.

            Há muitos de nós que se inquietam com a realidade à sua volta por verem tantas pessoas longe de Deus. Esta inquietação, até certo nível, é saudável e até necessária pois, se realmente amamos o nosso próximo, queremos que ele encontre de verdade Nosso Senhor e se salve. Assim, quem tem esta inquietação, tem também o desejo de levar as pessoas para Deus. O problema é quando este bom desejo se corrompe em fundamentalismo, muitas vezes ocasionado por escrúpulos, e a pessoa não consegue ter paciência ou prudência: precisa repreender qualquer um que se vista de modo impudico, que fale algo que não se encaixa em nossa fé ou qualquer coisa, tenta teimosamente convencer os outros da verdade católica a despeito do fechamento dos corações alheios e, ao contrário de sua bela intenção, leva os outros e a si mesmo ao pecado: os outros às blasfêmias, à irritação, assim como ele mesmo se irrita e corre o risco de julgar os outros. Isto acontece por ele, com a melhor das intenções, ter jogado pérolas aos porcos devido à sua imprudência. Nós vemos com frequência coisas assim pela internet, especialmente nas redes sociais, com pessoas empreendendo debates infrutíferos com ateus, abortistas, defensores do casamento homossexual, comunistas, protestantes, etc. Essas atitudes são geralmente tomadas pelos mais jovens que, sem perceber, podem estar encarando a religião como uma simples ideologia a ser propagada e aceita pelos demais, não aplicando corretamente o princípio do amor ao próximo.

Não digo que temos que nos calar perante todas as situações, digo que temos que saber falar e saber calar, saber fazer o que o amor exige naquele momento, como falava semana passada. Às vezes nosso silêncio diante de uma situação pode levar os outros ao escândalo e às vezes é a nossa manifestação que pode escandalizar. O que fazer então? Como saber o que fazer? Não há uma regra pronta, uma fórmula onde nós só precisamos encaixar as variáveis, como na física. Precisamos analisar cada caso real como único e, com confiança em Deus, fazer aquilo que, à luz da doutrina católica e da razão iluminada pela graça, nos parece melhor para a glória de Deus e o proveito dos homens.

Mas por que falar de tudo isso num texto sobre amizade? Porque este é um dos meios mais preciosos para se levar os outros a Deus, que é o objetivo de quem comete os erros que mencionei acima e porque estas questões são fonte de inquietação, ansiedade e escrúpulos para muitas pessoas e gostaria de aproveitar a oportunidade para tentar ajudar um pouquinho àqueles que sofrem com estas dificuldades. Vamos, pois, ao que mais nos interessa.

Vejam: quem teme ao Senhor terá amigos semelhantes a si. Isto quer dizer que, como disse antes, através da amizade, o temor e o amor que temos por Deus pode transbordar àqueles à nossa volta. Isto pode ser algo para confortar os corações daqueles que sofrem dos males de que falamos acima.

Para vivermos isto, devemos ter, primeiro, um grande sentido sobrenatural. Devemos saber que as penitências, os sacrifícios e orações que fazemos pelos outros são ouvidos por Deus. “É impossível de perecer um filho de tantas lágrimas”, foi o que um bispo disse, muito prudentemente, como relata Santo Agostinho, à sua mãe Santa Mônica, angustiada por ele estar envolto na heresia e impiedade. Deus escuta nossas orações pelos outros. Afinal, não está Ele muito mais interessado que nós na conversão do nosso próximo? Não foi Ele quem deu Sua vida na Cruz por todos e por cada um de nós, pobres pecadores? Tenhamos confiança na Sua Misericórdia e rezemos muito por nós e pelos outros.

Depois, é necessário que nosso amor se manifeste concretamente em nossas obras. Afinal, não é a amizade um tipo de amor? Devemos ser, na medida do possível, um Alter Christus para os homens (evidentemente, cada um de acordo com seu estado de vida, sendo os ministros ordenados outros Cristos de maneira essencialmente diferente de nós, leigos), estando ao lado deles não para sermos servidos, mas para servi-los em suas necessidades materiais e espirituais. Esta amizade, este testemunho, faz com que resplandeçamos a Face de Cristo para o nosso próximo, fazendo-o, de certa forma, conhece-Lo. E isto fala muito de Deus, às vezes mais do que as palavras, às quais o coração humano pode estar fechado. Como São Francisco de Assis disse, nossa vida pode ser o único Evangelho que muitas pessoas vão ler na delas. Isto pode confortar os escrupulosos, mas deve também chamar os tíbios à conversão: vejam quão grave é o nosso dever de praticar boas obras, de dar um bom testemunho de católicos! Disso pode depender a salvação das almas e, mesmo que seja só de uma, já não é o suficiente para nos esforçarmos ao máximo por isso, como o Bom Pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para procurar a perdida?

Enfim, temos as conversas sobre a nossa fé. As pessoas não viram cristãs “por osmose”. É verdade que o testemunho de um santo pode levar muitas pessoas à conversão, mas devemos estar também sempre prontos para dar as razões da nossa esperança, como diz São Pedro, além de que, no mundo em que vivemos hoje em que nossa amada mãe Igreja é tão maltratada pelos homens, poucos a conhecem de verdade. Como disse o Venerável Fulton Sheen: “sequer cem pessoas odeiam a Igreja: mas milhões odeiam o que acham que a Igreja é.” Por isso, faz-se necessária a nossa formação, para que conheçamos com profundidade a nossa fé, e as conversas com nossos amigos, para que eles também possam conhecê-la de verdade. Claro, estas conversas devem sempre ocorrer com aquela prudência de que falamos acima, isto se a prudência permitir que elas ocorram, pois são muitos aqueles que não têm o coração preparado para receber a verdade e, neste sentido, as nossas orações e o testemunho que damos podem ajudar.

É esta, meus amigos, minha pequenina contribuição de hoje. Se gostaram do que leram e se acham que pode ajudar alguém, compartilhem em suas redes sociais e com seus amigos. Deus abençoe a todos! Que Nossa Senhora nos torne grandes amigos de Cristo e dos homens!

domingo, 6 de setembro de 2020

A única coisa necessária

 


            Depois de um breve período parados, é bom estarmos de volta com os nossos textos! Peço perdão pela ausência durante este tempo. Esta ausência não foi por falta de ideias, tanto que a ideia para este texto estava em minha mente já há algum tempo, mas por dificuldades que encontrei para sentar e escrever. Vamos, então, ao que interessa!

            A maioria de nós já deve conhecer a famosa cena do Evangelho em que Nosso Senhor repreende a agitada Marta e defende sua irmã, Maria, dizendo que “uma só coisa é necessária” (Lc 10,42). O que seria então essa coisa? Digo que é o amor, o amor a Deus e ao próximo em toda a nossa vida e em cada momento dela. Às vezes vivemos uma vida de tantas preocupações que dificilmente nos ocupamos de fato. E às vezes são preocupações não só lícitas, mas boas, como a salvação da nossa alma e a das almas dos outros, ajudar alguém que precisa, fazer alguma obrigação, e tantas outras coisas. O problema é que, se nos deixamos levar por isso, nossa mente fica perturbada e nosso espírito desorganizado: vemos uma imensidão de afazeres e de responsabilidades e não sabemos qual fazer primeiro, então começamos um, paramos e passamos a outro, então voltamos àquele... Assim, nem nosso dia rende, nem nós ficamos saudáveis e a nossa intenção que era servir a Deus não se concretiza. Gostaria de falar sobre isso hoje.

            Disse que é necessário o amor em toda a nossa vida e em cada momento dela. Comecemos pela primeira parte. O que quero dizer com “amor em toda a nossa vida”? Quero dizer que ele deve ser como que um princípio ordenador dela, como que a sua alma. Olhando nossa vida “de longe”, como uma linha cheia de pequenos pontos, devemos pensar no amor como um princípio que une todos os pontos, que os permite permanecer juntos, coesos e apontando numa mesma direção, que é a direção do céu. Assim, todas as decisões que vão moldar esta vida, esta linha, devem levar em consideração o amor e devem deixar que Deus o coloque nela para que ela permaneça uma e harmônica. Todos os nossos planos, os nossos objetivos, as nossas decisões que definem o curso da nossa vida devem ser impregnados de amor, devem ser por amor, com amor e para o Amor. Poderíamos usar uma outra imagem: a imagem de uma orquestra cujo maestro é o amor e a plateia é a Santíssima Trindade. Este maestro deve conduzir todos os instrumentos dando a eles a ordem necessária, mandando-os tocar cada um em seu momento e no devido tom, de acordo com a doce melodia que o maestro quer produzir para agradar a Nosso Senhor.

            Vamos agora para a segunda parte: “o amor é necessário em cada momento de nossa vida”. Se antes nos referíamos ao princípio que ordena a reta que representa a nossa vida, mantendo os pontos coesos, agora nos referimos aos pontos em si. Não adianta termos grandes decisões, grandes propósitos de amar a Deus e ter este princípio ordenador se não damos a ele o que ordenar, se não temos atitudes concretas de caridade. Talvez seja esse o principal ponto para nós hoje. Sabemos todos que o amor de Deus deve ser o nosso Norte, o nosso farol, mas será que, de fato, estamos caminhando para esta direção? Não me refiro aqui às nossas misérias, que são desvios deste caminho e espinho na carne que todos aqueles que amam a Deus têm de sofrer, mas me refiro aos passos concretos que devemos dar na direção que o amor nos aponta. Por exemplo, se dizemos que queremos ser grandes estudiosos por amor a Deus, estamos de fato estudando? Se queremos ser grandes pais, estamos empregando os meios necessários para a educação de nossos filhos nas situações concretas que nos aparecem? É nisso que devemos prestar atenção...

            Agora, se feri alguém com o que acabei de dizer, venho logo trazer o mertiolate, falando ainda do mesmo assunto. Quero falar a todos para que tenhamos muita calma, muita paz e serenidade! Ou vamos acabar sendo repreendidos por Nosso Senhor, como foi Marta, além de desenvolvermos tantas inquietações que pesarão muito em nossa vida. Façamos uma coisa de cada vez. Em cada momento de nossa vida, nos dediquemos ao que o amor nos pede naquele momento. Se vou rezar, que fiquem para lá os estudos, as contas a pagar, até os pecados! Não digo que estas coisas não devem aparecer na nossa oração, porque devem! Mas elas não podem ser o centro. A oração é nosso doce momento de encontro com Deus, é a parte do dia em que buscamos contemplar a Face daquele que nos habita. Não devemos ficar olhando para outras coisas, mas apresentá-las diante de Cristo, com quem estamos conversando. Assim também, quando formos estudar, não podemos pensar naquilo que estudamos e rezar vocal ou mentalmente ao mesmo tempo. Neste caso, devemos oferecer as nossas obras a Deus e nos concentrar nelas, podendo, claro, fazer pausas para contemplá-lo, mas lembrando que aquele é o momento do estudo, do trabalho, que é também importante para Deus, logo merece toda a nossa atenção.

            Voltando à imagem da orquestra, o maestro Amor ordena que cada um dos instrumentos toque a nota certa, no tom certo, no momento certo. Se a flauta tocar na hora do violão ou tocar a nota errada na hora certa, a música vai desagradar aos ouvidos! Por isso, necessitamos, em nossa vida, de ordem, de harmonia para poder amar.

Unidade, harmonia. Uma só coisa é necessária em toda a vida e em toda ela. O amor é necessário em toda ela e, em cada momento, aquilo que o amor exige nele é necessário. O amor harmoniza, unifica todos os instrumentos da orquestra da vida cristã. Ao mesmo tempo, ele exige que sejam feitas coisas tão diferentes e que sejam cada uma a seu tempo: cada músico com seu instrumento e cada instrumento no correto momento da música do amor divino. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo, ou a música soará terrivelmente mal. Ao contrário, cada coisa no seu tempo para uma melodia agradável a Jesus.

Deus abençoe a todos! Obrigado por lerem até aqui! Que Nossa Senhora nos ajude a termos ordem em nossa vida!

domingo, 16 de agosto de 2020

Maria: a mais extraordinária das mulheres comuns

 

            Ontem, dia quinze de agosto foi dia da Assunção de Nossa Senhora, mas comemoramos no Brasil apenas hoje, no domingo após a data por não ser um feriado nacional e ser uma solenidade tão importante. A Assunção de Nossa Senhora, mistério que termina a sua vida, está relacionado completamente com seu início, na sua Imaculada Conceição e com o seu decorrer que, em santidade, só fica atrás de Nosso Senhor, pelo abismo que há entre Deus e criatura. Hoje, falaremos especialmente desta santa vivência, que foi extraordinariamente comum.

            Ora, dizer que Nossa Senhora é uma mulher comum é um grave erro, considerando todos os privilégios que Ela recebeu da graça divina: sua concepção sem pecado original e uma vida permeada pela misericórdia preventiva de Deus, que não a deixou cair em pecado algum como comentava há pouco, e o mais gritante: a maternidade do Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas há certa maneira de considerarmos sua vida como comum. Olhando para o Lar de Nazaré antes do início da vida pública de Jesus, podemos contemplar a Sagrada Família reunida: Jesus e José trabalhando na carpintaria e Maria cuidando da casa, preparando o almoço... tudo normal, comum se olharmos com olhos simplesmente humanos. Nossa Senhora tinha uma rotina de uma judia comum: rezava, meditava, trabalhava... Quem sabe algumas pessoas que morassem perto da casa da Família não notassem algo de diferente? Mas, pelo que vemos no Evangelho, nem a santidade perfeita de Nosso Senhor foi percebida pelos seus conterrâneos. Logo, torna-se muito difícil que tenha sido Ela percebida.

            E qual o ponto em que quero chegar? Em algo que gosto muito de enfatizar, e que já o foi tanto por grandes santos, como São Francisco de Sales e São Josemaria Escrivá: a grandeza da vida comum, da vida cotidiana. O cristão se santifica cumprindo bem os seus deveres. Para sermos santos, não é preciso fazermos coisas esquisitas. É verdade que é bem difícil que aqueles que convivem conosco, se procuramos seguir bem os ensinamentos de Deus e da Igreja, podem nos olhar como pertencentes a outro mundo, porque de fato, como diria Santo Agostinho, somos cidadãos celestes vivendo na Terra e aqueles que não o são estranharão nossas opiniões e nossas escolhas; e isto ainda mais no mundo secularizado e longe de Deus em que vivemos. Mas, o que devemos evitar é uma certa busca ativa por parecer diferente dos outros ou ainda certas coisas contrárias à prudência, virtude necessária para nossa santificação. Isto pode vir ora do orgulho, ora de certo escrúpulo que nos induz a fazermos coisas que não precisamos e que, às vezes, nem devíamos.

            Eu sou estudante. Se eu tenho uma prova amanhã, o que eu faço? Estudo para a prova e durmo cedo para descansar bem ou passo o dia e a noite inteira em oração por causa de uma pretensa inspiração divina e nem aprender, nem descansar, acabando por me dar mal na prova? Claro que a primeira opção. Nossa Senhora teve que tomar atitudes como esta na sua vida de Mãe e foram estas e outras atitudes as que a santificaram. Claro que ficar de pé junto à Cruz ou ser Virgem até a morte são coisas que mais nos chamam a atenção, mas a sua vivência cotidiana, seu cuidado com as pequenas coisas, com o sal que colocaria na comida e com a limpeza da casa foram também parte de sua vida e parte importante dela, pois foi cumprindo estes e outros deveres com amor que seu Imaculado Coração, já pleno de graça, como diz São Gabriel na saudação, foi se dilatando para amar ainda mais a Deus e foi se preparando para os grandes eventos de sua vida: a Encarnação do Verbo, o Seu nascimento, Sua Morte na Cruz, Sua Ressureição e Ascenção, o Pentecostes e, ao fim da vida dela, sua Assunção aos Céus e a sua Coroação como Rainha do Céu e da Terra.

            Falamos de como Nossa Senhora foi uma mulher comum. Mas por que seria ela a mais extraordinária das mulheres comuns? Sabemos de todos os seus privilégios, mas do que quero tratar no momento é da vivência extraordinária da sua vida comum. Como dizia antes, o cristão se santifica cumprindo bem os seus deveres. Maria, diferente de nós, cumpriu tudo o que Deus pediu a Ela. E não só cumpriu tudo, mas o fez com o máximo de perfeição possível, isto é, com o máximo de amor possível. Ela preparava cada refeição, realizava cada faxina com o maior amor que poderia dar. Isto não quer dizer que ela colocava grandes pesos psicológicos e imensa gravidade em cada coisa ou que não parava de pensar em Deus a cada momento, mas que, com a paz, a serenidade e a alegria que vêm de Deus ela realizou amorosamente suas tarefas e viveu sua vida. Dessa maneira, ela foi caminhando a cada dia, a cada segundo, para o Céu. Sua Assunção, ao fim de sua vida, foi uma síntese dela inteira, vivida toda voltada para o Eterno, mas vivida na história, no tempo.

            Vejam só mais uma coisa que acabo de me lembrar: Maria foi assunta aos céus, diferente de Jesus que ascendeu. Isto significa que, nesta síntese de sua vida, ela não subiu aos céus por força própria, mas foi levada por Deus. Assim também em sua vida cotidiana: ela dependeu da graça divina para todos os movimentos de amor que realizou em sua maravilhosa vida. Assim também nós, se quisermos imitar sua perfeição, devemos empregar todos os nossos esforços como ela o fez, mas confiando sempre na graça divina e sabendo que, sem ela, sem Deus, nada podemos fazer.

            Peçamos no dia de hoje a tão Boa Mãe, a graça de sermos, como Ela, muito humanos e muito divinos, que Ela nos ensine a viver como Ela viveu, como bons discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque é isto que a devoção à Ela e a contemplação de sua vida deve fazer conosco: conduzir-nos para Ele.

            Deus abençoe a todos! Feliz dia da Assunção  e uma boa semana a todos!

domingo, 2 de agosto de 2020

Filiação divina


            “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.” Assim começa o Evangelho segundo São João. O Verbo, nós sabemos, é o Filho de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se encarnou, tornando-se homem como nós. A palavra verbo tem três significações próprias, segundo Santo Tomás: o conceito interior da mente, a palavra proferida significativa deste conceito e a imaginação da palavra, sem ser proferida. Deus, eternamente e num mesmo ato, é e se intelige e esta intelecção gera o Verbo subsistente e da mesma natureza do Pai: é o Filho de Deus, que é também Deus.

            Peço perdão por este início um pouco mais complicado de se entender, mas acredito que possa ser construtivo para nossa reflexão de hoje. Queremos falar da nossa filiação divina e da sua grandeza, da excelência que é ser filho de Deus e, para isso, é bom que ao menos possamos contemplar, com todo o nosso limite e de maneira imperfeitíssima, como se dá a filiação na Trindade, porque, já adianto, é desta filiação que, pelo Batismo, participamos.

            Há diversas maneiras de se ser chamado filho de Deus. De certa forma, todas as criaturas podem ser chamadas filhas de Deus, por analogia de criador-criatura. Mais propriamente o homem, por ser naturalmente imagem de Deus, pode ser chamado desta forma. Mas, pelo Batismo, nós somos inseridos no Corpo de Cristo e temos uma filiação divina ainda mais perfeita que a de Adão antes da queda: somos filhos no Filho de Deus, participamos da maneira pela qual o próprio Cristo é Filho do Pai. E isto é muito grande. Isto é, para nós batizados, objeto de um certo santo orgulho, de grande complacência. O Pai nos adotou como filhos! Deus, o criador de todas as coisas, nos olha como um pai olha seu filhinho pequeno, só que com muito mais amor e muito mais zelo, porque o Pai é infinito. Que grandeza! Como somos grandes! Temos um Pai que nos ama infinitamente!

            Esta filiação deve como que brilhar em nós através do testemunho de nossas vidas, especialmente pela confiança que depositamos no nosso bom Pai Deus. Se eu sei que Deus é meu Pai e que Ele me ama com amor infinito, não tenho motivo para perder a paz ou a alegria em meio aos sofrimentos. Não é para sermos robôs ou anjos que não sofrem ou que não são afetados por nada. Mas, em meio as lágrimas que as circunstâncias de nossa vida possam nos provocar, devemos estar com o coração confiante em Deus. Cristo sofreu e muito na Terra. O vimos chorar por Seu amigo que morreu, por Jerusalém e sua falta de conversão, o vimos cheio de angústia ao saber que estava próxima Sua Paixão, sem falar nela mesma, mas Ele nunca desconfiou da bondade de Deus, nem se entregou ao desespero. Enquanto as partes mais baixas de Sua alma sofriam amargamente, a mais alta tinha uma alegria que nós só vamos conhecer no Céu, e ainda muito imperfeitamente. Assim, imitemos ao Filho de Deus perante as tribulações de nossa vida, porque participamos desta filiação também, para a honra e glória de Deus e para o nosso próprio bem, porque não tem dor pior que a do desespero.

            Alguns de nós, porém, não sofrem por circunstâncias externas, mas internas e essas são, de fato, as mais difíceis de se enfrentar. Às vezes os nossos próprios pecados nos causam um peso tão grande que queremos desanimar, que nos entristecemos ou nos irritamos. O segredo é ainda a confiança em Deus. Ele está sempre pronto para perdoar-nos e não devemos temê-Lo e nem o sacramento da Confissão, que é um tribunal de misericórdia, porque se Deus sofre pela ofensa proferida contra Ele, sofre muito mais por estarmos distantes Dele. Devemos olhar para nossas misérias com extrema confiança e humildade, mas não uma humildade fria e triste, que é muito mais um orgulho mascarado. Não: o verdadeiro humilde fica em paz com sua própria miséria, pois não espera muito de si, conhece sua incapacidade. Não quer dizer que não sofra, mas sofre como que em paz. Assim, nem os nossos pecados devem nos tirar a alegria e a paz próprias dos filhos de Deus. Santos mesmo só o seremos no Céu. Não sejamos, com o perdão das palavras, tão mimados e birrentos ao ponto de, diante de tantas graças e de tantos privilégios recebidos da Providência, como a própria filiação da qual estamos falando e mesmo o estado de graça que os nossos pecados veniais não podem nos roubar, ficarmos tristes e emburrados com as circunstâncias exteriores e interiores, como uma criança que ganha um maravilhoso bolo de chocolate de aniversário, mas se entristece pois a cereja não está bem no centro.

            Sejamos homens e mulheres simples e conscientes da nossa grandeza e da nossa miséria, sem deixar que esta encubra a alegria proporcionada por aquela. Vivamos segundo a nossa condição de filhos no Filho de Deus, imitando cada uma das suas pequenas atitudes. Assim, termino este pequeno texto. Espero ter colocado nas mentes dos meus leitores pelo menos um pouquinho da alegria e da paz que me vêm de saber que sou filho de um Pai tão maravilhoso. Que Nossa Senhora, Nossa Mãezinha aumente em nós a consciência da filiação divina e da filiação que temos para com ela. Deus abençoe a todos!


domingo, 19 de julho de 2020

Os corações

Como se consagrar ao Sagrado Coração de Jesus

            O coração é um órgão corporal presente em muitos animais, inclusive no homem. Mas há também outros sentidos de se falar em coração. Há o sentido de centro espiritual da afetividade humana e também aquele do íntimo do homem, como que o mais profundo de seu ser. Queremos falar hoje deste último caso e de certos tipos de coração que conseguimos encontrar: dois que já conhecemos, o de pedra e o de carne, mas também um outro, que parece estar entre os dois: o de metal. O nosso objetivo deve ser sempre ter um coração de carne, como o de Cristo e como aquele que Deus prometeu a Israel no lugar dos seus corações de pedra. Mas este objetivo é árduo e só pode ser alcançado com o auxílio da graça e, na sua busca, devemos lutar para não desenvolvermos corações de pedra ou, como o que falei, de metal.
            Analisemos, primeiro, a temperatura dos corações. Aquilo que é quente não está preocupado em absorver calor, mas em doá-lo àquilo que está próximo. Assim é o Coração de Jesus: Fornalha Ardente de caridade, como rezamos na ladainha. Ele, a despeito de todo o desprezo que recebe daqueles que está ao seu redor, procura sempre partilhar o que tem com eles, que é a Sua própria vida divina. Conosco é assim, também. Apesar de todos os nossos pecados, de nossa frieza, Nosso Senhor quer sempre dar o Seu calor para nós, partilhar conosco Sua vida. Na física, quanto maior a diferença de temperatura entre dois corpos, maior o fluxo de calor entre eles; e na nossa relação com Deus, quanto mais distantes estamos Dele, quanto mais frio está o nosso coração, mais Jesus quer dar a nós o Seu amor, quer nos fazer participar do amor que Ele tem por Deus Pai. Esta é a caridade, simbolizada pelo calor do coração: o desejo de em tudo agradar a Deus, de tudo referir a Ele. E é esta caridade que o Coração de Cristo quer comunicar àqueles que se aproximam Dele.
            E quanto aos movimentos do coração? O coração bate para dar a vida ao corpo inteiro, trabalhando incessantemente para que não falte sangue a nenhum órgão e que este não venha a desfalecer. O Coração de Cristo é a fonte de vida do Seu Corpo Místico: a Santa Igreja. Ele trabalha incessantemente para levar a graça divina a cada membro do Seu corpo, para que nenhum se separe de Deus, para que nenhum perca aquele calor, aquela caridade de que falamos acima. Jesus não se conforma em apenas desejar aquecer o que está frio, mas Ele trabalha incessantemente para manter aquecidos aqueles que estão em comunhão com Ele.
            O Coração de Jesus não é duro como uma pedra, que se quebra em mil pedaços se for golpeada, deixando apenas poeira para trás. Não: Ele é um coração de carne, do qual, quando golpeado, jorraram sangue e água. É o Coração sensível que encheu-se de compaixão pela morte de Seu amigo Lázaro e pelas misérias de tantas pessoas que encontrou no seu caminho e que continua a encher-se de compaixão pelas nossas misérias. Cada dor Sua teve como resposta rios de misericórdia; cada “pancada” que as misérias alheias lhe davam, devolvia com atos de amor.
           Falamos, até agora, do Coração amabilíssimo de Nosso Senhor, o qual devemos buscar imitar. Mas e quanto aos outros dois tipos? Com um nós já temos certa familiaridade: o coração de pedra. Este é duro, frio e imóvel. Não se preocupa com nada nem com ninguém além de si próprio, não buscando compartilhar nada do que é seu, não movendo um dedo para a edificação daqueles que estão ao seu redor e muito menos se compadecendo das misérias alheias. Deste nós sabemos que devemos fugir a todo custo. Mas o que seria o coração de metal?
            Vejamos como são as máquinas de metal. Elas são frias, embora possam superaquecer em alguns momentos, duras e, diferentemente das pedras, tem um movimento que simula o de algo vivo. Assim são os nossos corações muitas vezes: frios, não querendo partilhar nada com ninguém, apenas receber o que lhes apraz; duros, indiferentes às misérias alheias; e aqui está o que pode nos iludir: movem-se com certa artificialidade semelhante à dos corações de carne. Infelizmente, talvez seja este o estado da maioria dos corações dos cristãos em estado de graça. Não estão completamente mortos, pois para uma máquina se mover é preciso energia, que podemos dizer que seja a graça divina, mas os seus movimentos não são os de homens caridosos que querem em tudo fazer a vontade de Deus. Muitos estão ainda encharcados de amor próprio e o cumprimento da lei para eles não passa de um movimento exterior e artificial, visando sempre fazer o mínimo necessário para a própria salvação e depois dispersar-se no próprio egoísmo. É a triste tibieza. É comum passarem pela inquietação dos escrúpulos, pois, buscando apenas o mínimo necessário, se sentem sempre por um fio de não o terem feito; inquietam-se com o menor “defeito em seus circuitos” ou com o menor amassado na sua carapaça de metal, que geralmente é muito difícil de se consertar por completo, devido a dureza do material, porque estão ainda muito apegados a si mesmos e não tomaram a decidida decisão de entregar a vida a Cristo.
            Como é triste e frustrante a nossa vida quando estamos neste estado... E ao contrário, como é feliz viver só para Deus! Não nos frustramos mais com nossas misérias: a humildade que Cristo partilha conosco nos faz vê-las em paz e pouco olhar para elas, mas mais para Aquele que pode curá-las. Nossos trabalhos e orações não nos são pesados, embora possam ser sofridos, porque a caridade de Cristo que nos impele faz com que queiramos aquilo que Ele quer.
Enfim, torna-se feliz a nossa vida quando visamos somente a Deus. Quando o fazemos, nosso coração se aquece de tal modo que vê Deus em tudo e sua contemplação o faz feliz e desejoso de partilhar com os homens o calor que recebeu de Deus e, por isso, logo se põe a bater forte, trabalhando com ardor no serviço a Jesus e aos seus semelhantes. Também nosso coração se torna capaz de compadecer-se das misérias alheias e quer fazer tanto quanto o possível para consolá-las; inclusive, busca consolar o Sagrado Coração que tanto sofre com as ofensas humanas.
E isto, meus amigos, não é coisa de sentimentos. É, sim, coisa de uma razão iluminada pela graça, que consegue saber o que é bom e agrada a Deus e de uma vontade fortalecida por ela, que se esforça para fazer o que a razão a indica, mesmo que seja doloroso ou que seus sentimentos apontem na direção contrária. Isto é amor. Isto é ter um coração cristão autêntico: buscar agradar a Deus em tudo, esforçando-se constantemente para ser mais amigo de Cristo através do cumprimento da vontade de Deus, que é amá-Lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Não nos inquietemos se ainda não possuirmos este coração de carne... Nem olhemos em demasia para nosso coração duro. Fixemos, antes, o nosso olhar em Cristo, o Médico Divino, para que Ele trabalhe e conserte as nossas misérias. Olhemos incessantemente para a Santa Beleza que é Deus, para que ela imprima Sua marca em nós, transformando o nosso coração em um coração semelhante ao Seu.
Que Deus converta o meu e o seu coração! Recorramos a Nossa Senhora, aquela que tem o Coração mais semelhante ao de Cristo de todas as criaturas, para que ela clame a Deus por nós, a fim de que Ele transforme os nossos corações.

domingo, 12 de julho de 2020

O PURGATÓRIO SEGUNDO SANTA CATARINA DE GÊNOVA E A FÉ DA IGREJA


Santa Catarina de Gênova pode nos ensinar sobre a Conversão? Veja
Santa Catarina de Gênova

Em tempos de pandemia, onde tantos de nós sofremos com a perda de parentes e estamos também sob risco, cabe a reflexão sobre a morte, o estado de nossas almas, das almas dos nossos parentes, e como estamos respondendo às graças que todos os dias Deus nos concede, ao preço altíssimo que Ele pagou por nós: a vida do seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. A meditação sobre purgatório é muito importante porque nos faz refletir alguns aspectos, entre os quais: a pureza e santidade de Deus, na qual nós não podemos permanecer se também não nos esforçarmos para viver uma vida reta e nos purificarmos pelos meios que a Igreja nos oferece; a gravidade do pecado; a misericórdia de Deus e a esperança de alcançar a salvação, pois sem o Purgatório, seria muito difícil chegar ao Céu; a comunhão dos santos; a importância do sofrimento e das penitências nesta vida; a eficácia da Santa Missa para nós e a Igreja padecente.
Purgatório é o lugar ou estado onde vão as almas dos que morrem em graça de Deus, sem haver inteiramente satisfeito por seus pecados, para ser ali purificadas com terríveis tormentos. A Igreja creu sempre que há almas que sofrem e necessitam de sufrágios, e a causa de seus sofrimentos eram os pecados cometidos, os veniais e os pecados mortais já perdoados. Embora a culpa do pecado já tenha sido remida, ainda há as penas temporais que devem ser pagas e estas almas iriam por fim para a glória depois de satisfeitas estas penas. Isto é uma verdade de fé: todas as almas que estão no purgatório alcançarão a glória celeste e tanto só temos esta vida para galgar boas obras e buscarmos a santidade quanto depois desta vida já não poderemos pecar.
Santa Catarina entende o Purgatório ao comparar o estado de sua alma, como consumido por um fogo que a purificava de tudo que havia necessidade, assim também as almas no Purgatório que estão sendo purificadas de toda mancha do pecado. Apesar de abrasada por esse fogo, a santa sentia-se muito feliz pelo bem que ele produzia, e entende que da mesma maneira as almas no Purgatório. Estas estão entregues ao estado em que se encontram, sem se acharem dignas ou indignas de tal estado, só se contentam de estar cumprindo o que Deus em sua grande justiça as impetrou, não tendo preocupações com outros nem consigo, estando imersas na caridade de Deus, sem poder pecar ou acumular méritos para si. A ferrugem do pecado é o impedimento que elas sofrem de não poder estar na presença de Deus, e o fogo do Divino Amor consome este impedimento, e cada vez estão mais próximas à Deus, aumentando o contentamento das almas. Este consumir não diminui a pena dos pecados, mas abrevia o tempo a que estão sujeitas sofrer.
            Santa Catarina afirma que embora, as almas estejam abnegadas em seus estados, sofrem penas indizíveis causadas pelos pecados. A pena que sofrem consiste principalmente, no fato de que se sentem cada vez mais atraídas para Deus conforme a mancha do pecado vai arrefecendo, no entanto como ainda existe este impedimento, elas não podem estar com Ele, o que lhes causa grande dor. Estas almas têm a certeza de que ainda não podem gozar da presença de Deus devido o que ainda precisa ser purificado e isto causa como que um fogo extremo semelhante ao do Inferno, mas sem a culpa. Esta é a pena de dano. Há também a pena de sentido, dores como as que sentimos na vida, embora não se possa dizer claramente como são. A intensidade destas penas é gravíssima, em geral muito maior que a das que padecemos aqui. São Cesário de Arles diz que não se deve contentar com o Purgatório pela certeza de alcançar a vida eterna, porque “o fogo do Purgatório será mais duro que quantas penas se podem ver, pensar ou sentir”.
Com a vontade unida a Deus e a ausência de culpa, as almas no purgatório podem ver a Deus conforme Ele as concede e entendem claramente que o seu fim último é estar com Deus. A santa dá o exemplo do pão único, como se só houvesse um pão que pudesse alimentar todos os homens, e estivessem impedidos de comê-lo, mas não morressem ou adoecessem, estariam sempre desejosos deste pão, com cada vez mais fome, mas ainda incapazes de experimentá-lo. Santa Catarina diz que é grande a misericórdia para estas almas haver o Purgatório onde podem se purificar, pois muito se deve o seu sofrimento em saber que há grandes males em si, cometidos voluntariamente contra Deus que é todo bondade e amor para conosco. O fogo que Deus a submete é capaz tanto de purificar quanto de aniquilar a alma, aniquilá-la em si mesma até a perfeição, onde ocorre uma purificação passiva que retirará todas as más inclinações e restaurará o estado perfeito em que foi criada.
O que devemos fazer pelas almas do Purgatório é continuamente oferecer sufrágios por elas para que se atenuem as penas, sendo as nossas orações, penitências e boas obras oferecidas à Deus, sendo da parte Dele dispor destes sufrágios com seu juízo infalível e grande misericórdia. O oferecimento de Santas Missas pela alma dos fiéis que se encontram no Purgatório é o bem maior que podemos fazer por elas. A Santa Madre Igreja também nos oferece a possibilidade das indulgências, que possibilitam a remissão parcial ou plena das penas temporais, sendo uma graça derramada pelas satisfações infinitas obtidas por Cristo e pelos santos.
Os meios para evitar o Purgatório são, primeiramente, evitar com todo o esforço o pecado (Santa Teresa diz “em aposento onde entra tanto sol, não há teia de aranha escondida”), fazer muitas penitências aqui, onde podemos obter grande satisfação por nossas culpas e aumentar nossos merecimentos para o Céu, viver a caridade pelas obras de misericórdia, perdoar as injúrias sofridas, as indulgências, a Eucaristia e a Confissão, sendo a penitência sacramental de maior valor que qualquer penitência de natureza privada, e a devoção à Santíssima Virgem Maria que se manifesta entre tantas práticas, principalmente, pela oração do rosário e o uso do escapulário do Carmo. Há também uma devoção pouco conhecida chamada Coroa ou Terço de São Miguel Arcanjo. Ela foi ensinada pelo próprio arcanjo a uma religiosa portuguesa no século XVIII e este prometeu que quem a rezasse todos os dias teria para si e para os parentes a libertação do purgatório.
Os tempos que se apresentam devem ser para todos nós de grandes intercessores pelas almas que padecem no Purgatório. Infelizmente, pouquíssimas pessoas se esforçam para viver uma vida cristã. Rezemos por elas e sejamos fiéis, nos esforçando com uma vida reta, sacramental, sem duplicidade, com penitências e mortificações, e confiando na graça de Deus que sempre nos socorre, para permanecermos com Ele e chegarmos ao estado de perfeição a que Ele nos chama: “sede santos porque eu sou santo”. Só temos o hoje!

Texto baseado no livro Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova.

domingo, 5 de julho de 2020

Música Litúrgica


História de Santa Cecília - Santos e Ícones Católicos - Cruz Terra ...
            A música estava intimamente ligada com a nossa fé desde as primeiras comunidades cristãs. Na carta de São Paulo aos Efésios, o Apóstolo de Cristo exorta a comunidade: “falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e em tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5, 19-20). É interessante o fato de o Apóstolo colocar o coração como o lugar de dar graças a Deus, cantando e louvando. Longe de qualquer euforia exterior, na Santa Missa, o nosso coração deve ser um verdadeiro templo de ação de graças.
Queridos irmãos músicos, quando exercemos o serviço dentro da liturgia, precisamos ter esclarecido no nosso coração a sua finalidade. O Papa João Paulo II, ao escrever um Quirógrafo em comemoração ao centenário do Motu Proprio Tra Le Sollecitudini, lembra que “São Pio X apresenta a música como um meio de elevação do espírito a Deus, e como ajuda para os fiéis na participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”. Papa João Paulo II, quer nos lembrar pelas palavras de São Pio X, que a música causa um impacto tão grande na alma que ela pode ser meio de elevação do espírito, ou seja, a música pode ajudar a quebrar o “gelo do nosso coração”, e ainda mais: a música é capaz de atingir até mesmo as almas tíbias. Além disto, a música na liturgia precisa proporcionar “a participação ativa dos fiéis”, essa participação não pode ser resumida ao simples fato da assembleia saber o canto, isto seria diminuir o que realmente a Igreja nos propõe. Devemos entender que no fato de o fiel ouvir e interiorizar a PALAVRA que está sendo CANTADA e alcançar uma verdadeira contrição e assim render graças a Deus em seu coração, a música na liturgia atinge o seu objetivo. É importante este esclarecimento, pois podemos cair no engano de achar que o fiel só está participando ativamente se este souber acompanhar todo o canto. Na Santa Missa, a escuta é uma forma de participação.
A liturgia tem como objetivo a “Glória de Deus e a santificação e a edificação dos fiéis”. Tendo em mente e guardando no nosso coração esta verdade, é necessário muito discernimento para a escolha dos cânticos e nunca perder de vista o objetivo da sagrada liturgia. Mas, como podemos dar glórias a Deus e ajudar na edificação dos fiéis? É importante, caros irmãos, entendermos que na Santa Missa celebramos o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo, o primeiro passo é escolher um repertório que não obscureça o caráter sacrificial que celebramos, é de suma importância manter a serenidade. Outro problema comum que ocorre em nossas igrejas é o barulho excessivo. Devemos ter cuidado! Vivemos em um mundo extremamente barulhento e precisamos seguir o exemplo de Nosso Senhor que se retira para lugares silenciosos para ter maior intimidade com o Pai. Queridos irmãos músicos, nós não podemos tirar o direito dos fiéis de escutar a Deus no silêncio, devemos ter cuidado com o volume dos microfones e instrumentos, além de evitar ficar “passando o som” poucos minutos antes da Missa, pois precisamos respeitar os fiéis que tem o valioso habito de rezar antes da Celebração Eucarística.
Outra atitude importante para o bom serviço é a pontualidade dos músicos. Marque com o seu ministério tempo o suficiente para passar o som, organizar os lugares, afinar o instrumento, rezar, e ainda sobrar bons minutos para se guardar o silencio para melhor concentração do grupo. Caro irmão, você também tem uma alma! Não deixe de viver a Santa Missa por conta do serviço. É claro que quem canta sofre certas aflições até mesmo por imprevistos que acontecem, porém, com organização antecipada, podemos diminuir esses imprevistos e melhorar a qualidade de nossa oração.  
Acrescentar mais eficácia ao texto é outra característica da música litúrgica relembrada no quirógrafo do Papa João Paulo II. Isto significa que para a Santa Missa, a música não pode destacar a si mesma, então devemos ter cuidado com harmonias e ritmos exagerados. É bom que a estrutura das músicas cantadas nas Celebrações Eucarísticas respeite uma hierarquia na seguinte ordem: melodia, harmonia e ritmo, pois quando a harmonia ou o ritmo ultrapassam a melodia, o texto que está sendo cantado corre o risco de ser ofuscado. Algumas músicas até mesmo tecnicamente difíceis, nem sempre se encaixam no contexto do rito, podendo atrapalhar a compreensão da Palavra. Outra coisa com que devemos ter cuidado - e todos nós músicos estamos expostos a este sentimento - é o estrelismo. Vou explicar melhor... Todos nós podemos cair na tentação de escolher certos repertórios não para cantar a PALAVRA, mais apenas para cantar uma música que a “minha voz seja exaltada”. Irmãos, nós músicos estamos expostos a pecados como a vanglória e o orgulho, para combatermos, devemos sempre ter em nosso coração a vontade do serviço, dedicando as nossas forças para a finalidade da liturgia, por isto, não descuide da vida de oração! Devemos sempre pedir a Deus a graça da humildade.
No texto passado, falei que o Canto Gregoriano é o canto oficial da Igreja. Talvez você nem saiba o que é o canto gregoriano. Convido você a tirar um tempo para escutar este estilo. Indico a Missa Orbis Facto. Perceba como o texto é valorizado e como a melodia está totalmente submissa ao texto. No Motu próprio Tra Le Sollecitudini de Pio X, prescreve-se que “uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana”. Algumas pessoas podem questionar se a Constituição Sacrosanctum Concilium não modificaria isto e a resposta é NÃO. Na Sacrosanctum Concilium o Canto Gregoriano continua como o canto oficial da Igreja, e isto se confirma no Quirógrafo escrito pelo Papa João Paulo II (pós-concilio). Outra dúvida que possa surgir é: “só pode ser cantado o canto gregoriano na Missa?” e a resposta também é NÃO. O que a Igreja nos orienta é que o canto se aproxime do estilo gregoriano. Para lhe ajudar a escolher o seu repertório, gostaria de destacar três características do canto gregoriano: a primeira é a primazia da PALAVRA, a segunda e a terceira são a leveza e a serenidade das melodias.
Caros irmãos espero ter vos ajudado a entender mais sobre a finalidade da música na liturgia. Agradeço a Deus por cada pessoa que se dedica a este serviço e peço a graça para que nós músicos, possamos ajudar a música litúrgica alcançar a sua finalidade. Deus vos abençoe!
Por Taynara Sousa

domingo, 21 de junho de 2020

O humano e o divino na vida cristã

   Sagrado Coração de Jesus (1800) | Tela para Quadro na Santhatela

  Venho falando em meus textos, há algum tempo, de dois erros que circundam o meio cristão: o sentimentalismo e uma certa negação dos sentimentos. Geralmente, falo contra essa negação dos sentimentos, que parece ser mais oculta e difícil de perceber, enquanto que contra o sentimentalismo já há muita matéria em diversos lugares. Contudo, gostaria de fazer um pequeno texto que fale um pouquinho dessas dimensões humanas e de seu contato com o divino. Não pretendo fazer um tratado muito denso ou complexo sobre o tema, até porque não tenho capacidade para algo assim. Mas espero que, com a graça de Deus, possa esclarecer pequenas coisas e ajudar àqueles que, como eu, tem este grande desejo de amar a Deus e de fazer sua vontade mas que tropeçam em suas misérias neste caminho.

    O objetivo da nossa vida humana é a união com Deus. Do que trataremos aqui é do caminho para esta união. Sabemos que o pecado original separou nossos primeiros pais da amizade com Deus, o que fez com que o gênero humano necessitasse de um salvador: Nosso Senhor Jesus Cristo. Sabemos também que, embora Deus tenha redimido a humanidade e nos alcançado o perdão dos nossos pecados, que nos vem, ordinariamente, através dos sacramentos, ainda trazemos em nós as marcas do pecado original e de nossos pecados pessoais. A que quero destacar aqui é aquela inclinação ao mal que torna a carne fraca, aquela lei dos membros que se contrapõe à lei do espírito, que nos leva a fazer não o bem que queremos mas o mal que não queremos. Para chegarmos ao nosso fim último, a união com Deus, temos de ser santos. Embora aqui na Terra nunca possamos ser plenamente santos como seremos no céu, nós podemos e devemos, com a ajuda de Deus, buscar a nossa santificação através da fuga do pecado e da prática das virtudes, ou seja, evitar tudo aquilo que nos afasta de Deus e buscar tudo aquilo que nos aproxima Dele. Para isso, é necessária uma colaboração entre Deus e o homem. Como disse Santo Agostinho: "Deus, que te criou sem ti, não pode te salvar sem ti." E essa exigência de colaboração fala a diversos aspectos de nossa vida.

    Comecemos com o mais evidente: nós precisamo decidir por Deus, escolher agradá-Lo através do cumprimento de Sua vontade. Deus toma a iniciativa de chegar até nós e nos chamar para perto Dele, mas Ele conta com nossa resposta. Sem ela, seremos, infelizmente, condenados. É por isso que, apesar da bondade de Deus, muitos vão para o inferno. É triste, talvez soe pesado, mas é verdade. Nosso Senhor sempre dá a todos as graças suficientes para serem salvos. Aqueles que não o são, poderiam ter se salvado, mas não se salvaram porque, de certa forma, não quiseram... E o Coração de Cristo fica tão ferido, tão triste porque aqueles a quem tanto amou o desprezaram e não o quiseram. O Sagrado Coração fica muito mais machucado e triste que irado com isso, porque estava pronto para derramar a misericórdia nas almas de todos os condenados, mas ele se fecharam a Ele. 

    Esta necessidade de decisão por Deus nos leva a refletir sobre algo que tem uma dupla consequência para nós. A devoção sensível, aquelas doces consolações que recebemos de Deus na oração, na Comunhão não são o essencial. Infelizmente, nós podemos fazer com que elas se tornem infrutíferas se não deixarmos que o mistério que contemplamos ilumine nossa inteligência e mova nossa vontade ao bem. Se Deus nos presenteia com alegrias, com uma contemplação de sua misericórdia que nos move até as lágrimas e nós não passamos disso, não colocamos essas verdades bem fundo em nossas almas e não tomamos resoluções para melhorarmos como pessoas, essas consolações terão pouco valor. Por isso, é necessário que estejamos atentos para colaborar com essas graças que Deus nos dá.

    Por outro lado, isto pode servir-nos de consolo, além de um "puxão de orelha". Há muitos de nós que se sentem culpados, distantes de Deus e se enchem de escrúpulos a ponto de paralisar a própria vida espiritual por não sentirem essas consolações. A questão é que isto não depende de nós! São presentes, dons de Deus para ajudar-nos a trilhar o caminho do bem, mas, como disse antes, não são o essencial. Deus quer de nós um espírito decidido por Ele. Se nos dispomos a rezar, a ajudar os outros por amor a Deus, pouco importa como estamos nos sentindo, se sentimos seu amor ou sua graça agindo em nós. Se não sentimos estas coisas, não significa que "nossa fé está fraca" ou que "Deus nos abandonou". Pelo contrário: pode ser uma grande chance de nos purificarmos, de darmos a Jesus um amor mais desinteressado, que não espera consolações, mas que só quer amar. Conheço a história de um rapaz angustiado que confidenciou ao seu amigo: "Me sinto longe de Deus, me sinto indiferente, como se não me importasse com Ele... Não sinto mais aquela alegria de rezar, nem o coração aquecido por aquele fervor apostólico que tive outrora. Sofro muito por isso..." e começou a lagrimar de dor. Ao que o amigo, mais sábio e mais experiente na vida espiritual lhe respondeu: "Amigo, pode alguém indiferente derramar lágrimas por se sentir indiferente?" E o jovem, apesar de não ter recebido de volta as consolações na mesma hora, sentiu-se com a consciência mais tranquila, confiando que amava a Deus mesmo que não o sentisse.


    Há, também, aqueles erros que, explícita ou implicitamente, negam o valor do humano, seja dos sentimentos e afetos, seja de toda a colaboração do homem na obra divina. E temos também os que superestimam as forças humanas nesta obra. É necessário chegar-se a um equilíbrio. 

    O coração (não como órgão corporal, mas como dimensão da alma), centro espiritual da afetividade humana, é criatura de Deus como o são a inteligência e a vontade. Por isso, é algo bom e que deve ser amado por nós. Nossos sentimentos e emoções, embora não sejam estritamente essenciais para a prática do bem, enriquecem a experiência humana dessa prática. Quanto à inteligência e a vontade, já falamos um pouco do papel delas acima, mesmo que da maneira superficial que o espaço e minhas capacidades permitem. 

    Quanto ao erro de superestimar este valor do papel humano, devemos sempre lembrar da nossa pequenez. Embora Deus conte com nossa colaboração na obra da nossa salvação, nosso papel, no fim, é muito pequenino. Deus é quem toma a iniciativa, move nossa liberdade (sem anulá-la) para o bem e cura as feridas causadas pelos nossos pecados. Quem quiser ser santo pelas próprias forças vai se frustrar, porque não vai conseguir. É bom que  desista logo e tome uma postura mais humilde diante da realidade da própria miséria. É o Espírito Santo que nos torna santos, não nós mesmos, embora tenhamos que aplicar todo o nosso esforço para colaborar com Ele. Assim, nós devemos cultivar sempre um espírito de docilidade, de pobreza e súplica diante de Deus. Também um espírito de tranquilidade, fruto da confiança no Seu amor que tudo pode, apesar de nossas misérias colocarem obstáculos à Sua graça.

    Confiemos sempre no Sagrado Coração de Jesus! É uma devoção muito terna que muito tem a ver com este tema de que tratamos... Nosso Senhor assumiu um coração humano para mostrar-nos que não é um Deus distante, mas um Deus que se preocupa conosco, que quer carregar conosco nossas cruzes, partilhar nossas alegrias, sofrer as nossas dores. Não deixou de ser Deus e Senhor, mas fez-se também homem e amigo nosso. Esta é uma devoção que pode tirar-nos o peso de confiarmos demais em nós mesmos e das decepções e remorsos que o acompanham, mas também da tristeza de desprezarmos a nossa natureza humana e o nosso papel na nossa salvação e na dos nossos irmãos. 

    Deus fez-se homem e experimentou todas as nossas dores; nosso Pai celeste cuida de nós como seus filhos amados e tudo faz para o nosso bem; temos Jesus como nosso amigo fiel, que tem um Coração divino como o do Pai, mas também humano como o nosso e sentiu tudo o que nós sentimos com exceção do pecado. Como nos angustiaremos? Suscitemos uma grande confiança nesse Deus que tanto nos ama. Dessa confiança brota uma santa paz por nos sentirmos abandonados aos cuidados de um Pai tão bom e um santo entusiasmo, pronto para colaborar com qualquer obra que Ele quiser empreender.

    Confiemos sempre em Deus! Deus abençoe vocês! Bom domingo e boa semana a todos!

domingo, 31 de maio de 2020

Pentecostes: homens de oração e de ação

8 chaves para compreender Pentecostes

Pentecostes. Após a Ascensão do Senhor, os apóstolos, junto de Nossa Senhora, permaneceram em oração até o dia de hoje (dando origem à primeira novena da Igreja), quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja nascente. Depois disso, os apóstolos se puseram a pregar, a anunciar a Palavra de Deus e a batizar os homens que se convertiam ao ouvirem e crerem no Evangelho. Que maravilha! Acredito que já dê para imaginar o que quero destacar aqui: a preparação dos apóstolos para a missão através da oração e o seu vigor missionário após a descida do Divino Paráclito.

Oração e ação devem constituir uma unidade na vida de cada cristão. Nem só uma, nem só outra podem esgotar a vivência do Evangelho. Reflitamos, primeiramente, sobre nossa vida de oração. O que é, afinal, fazer oração, rezar? Nada menos que um diálogo com o Senhor. Não devemos encarar nossas orações como uma pesada obrigação para com Deus, mas como um doce diálogo, uma doce conversa com Deus. Não esqueçamos nunca disso... Deus não está simplesmente no seu trono, olhando-nos com desdém quando rezamos, como um rei sádico que quer ver o povo sofrer e adulá-lo antes de "pensar no seu caso", se vai lhe ajudar ou não; Deus está, sim, em seu trono, porque é Rei de todo o Universo, mas nos olha de forma muito afetuosa, muito misericordiosa, inclinando-Se até nós para ouvir-nos como um pai faz com seu filho que lhe fala, como dizia o Santo Cura d'Ars. E vejam: um pai quer seu filho por perto, quer ouvir suas necessidades, tristezas, alegrias, conquistas e quer ajudá-lo ou participar da sua alegria. Agora, se o filho não quer contar ao pai, não ficará este chateado? Assim é com Nosso Pai Deus. Olhemos para nossa oração como um diálogo amoroso com Deus que nos quer por perto e para o sentimento que Ele terá se nós faltarmos a ela; não pensemos na oração, repito, como um fardo, como um peso, mas na maneira que temos de nos aproximarmos de Nosso Senhor. E nós precisamos dela para qualquer coisa. "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15, 5), diz o Senhor. Se não estivermos unidos a Ele, não daremos frutos, não conseguiremos perseverar. Como os ramos que recebemos no domingo de ramos secam fora da videira (ou da planta de que tiramos), nós também morremos se nos afastarmos do Senhor, ou seja, se deixarmos nossa vida de oração. E os apóstolos perceberam isso. Por isso, ficaram junto de Nossa Senhora, esperando que Deus enviasse seu Santo Espírito, para que, revestidos Dele, pudessem cumprir sua missão de anunciar o Evangelho a toda a criatura. Mas, ao receberem a graça, puseram-se em ação.

Há cristãos que querem ser homens e mulheres de oração. E todos devemos querer. Mas alguns não querem ser nada além disso... É verdade que há vocações na Igreja que são essencialmente contemplativas, ou seja, têm como missão dedicar-se à oração, às vezes também aos estudos, mas, nesse caso, sua missão é essa mesma: sustentar a Igreja, converter os pecadores, fazer descerem as bençãos de Deus através de suas orações. Assim, rezando e fazendo penitência não só por si, mas por todo o mundo, além de alguns outros trabalhos mais ativos que praticam, como a confecção de artigos religiosos, o acolhimento de peregrinos, a direção espiritual, os contemplativos, sejam monges ou eremitas, aqueles ainda se esforçando para cultivar o amor fraterno por aqueles que convivem com eles, servem a Deus e à humanidade. Mas, acredito que ninguém que lê este texto é monge. Então, falemos de nossa vida. Nós estamos no meio do mundo. Não devemos viver, pois, como se não estivéssemos, mesmo que enxerguemos que não é isto que Deus espera de nós. Se for, caminhemos nesta direção, mas não ignoremos o presente, porque a Vontade de Deus no presente é que nos comportemos de acordo com as circunstâncias que Sua providência colocou diante de nós. Ajamos, assim, como autênticos filhos de Deus em nosso próprio estado. Tenhamos boas relações com aqueles ao nosso redor, cumpramos o nosso trabalho, socorramos as necessidades de quem precisa, de acordo com nossas capacidades. Não esqueçamos de São Tiago, falando sobre a fé: "se não tiver obras, é morta em si mesma." (Tg 2, 17) Por isso, mostremos verdadeiro fruto de conversão, como mandava São João Batista, que também prefigurou o Pentecostes, anunciando que Jesus seria Aquele que batizaria com o fogo do Espírito Santo. Lembremos que a graça de Deus deve agir sobre homens concretos e deve deixar uma marca concreta em nossa vida concreta e santificar-nos, elevar-nos para Deus; não é apenas a fonte de consolações. Quantas vezes não buscamos a oração e o trato com Deus simplesmente para sentirmos as consolações Dele... Fujamos disso. Devemos amar o Deus das consolações antes das consolações de Deus, que devem ser amadas também, mas não mais que Aquele de quem provêm. Assim, confiantes na graça de Deus, sejamos fiéis à missão que Ele nos deu e busquemos preparar os corações dos homens para recebê-Lo, através de conversas, de orações, ou de atos simples de caridade. O Divino Espírito conta conosco para isso. Não quer só a nós, mas a toda a humanidade e quer que colaboremos com Ele para que todos os homens o recebam, preparando seus caminhos, como João Batista preparou os de Jesus. Assim, não podemos nos dar ao luxo de viver uma vida medíocre de modo algum. Sejamos esforçados profissionais, estudantes, filhos, pais; sejamos autênticos filhos de Deus, nos esforcemos para refletir Sua face para os homens.

Que Nosso Senhor infunda em nós o Santo Espírito! Que o Divino Paráclito possa aquecer nossos corações e transformar nossa vida numa constante oração, seja nos momentos reservados especialmente para estar com Ele, seja nos momentos em que Ele faz de nós instrumentos de Seu Amor para levar servirmos a Ele e aos homens. Deus abençoe a todos! Um bom domingo de Pentecostes e uma boa semana a todos!

domingo, 24 de maio de 2020

A Ascensão do Senhor e a miséria e a dignidade humanas

Vésperas da Ascensão do Senhor - Liturgia das Horas

Ascensão do Senhor! O dia em que Ele subiu aos céus para junto de Seu e Nosso Pai, depois de tanto tempo conosco, e nos prometeu o Espírito Santo. Este mistério celebrado hoje pode iluminar profundamente nossa vida espiritual. Gostaria de destacar aqui dois frutos muito bem unidos entre si que podemos tirar deste mistério: humildade e esperança, todas as duas do fato de que a divindade de Jesus eleva Sua santa humanidade.

Por que a Ascensão de Jesus nos convida a sermos humildes? Sempre lembro que apenas Nosso Senhor conseguiu subir aos céus por força própria, enquanto que nós só o podemos com o auxílio que Ele nos dá. Não adianta empregarmos toda a nossa força humana se não estivermos confiando na divina. Jesus subiu sozinho aos céus porque é Deus além de homem, enquanto que nós somos apenas pobres homens, pobres e fracos seres humanos. Nenhum homem pode ascender ao céu. Nem Nossa Senhora o pôde: ela foi assunta, foi levada aos céus pelo divino poder. Mas isso todo mundo já sabe. Todos sabemos que só podemos ser salvos pela misericórdia de Deus. O problema é que nem sempre nossas ações são coerentes com isto. Frequentemente não somos tentados a buscar a conversão nossa ou de outra pessoa somente com nossas próprias forças? E no que isso dá? Desânimo, tristeza, frustração... Tantas angústias sentimos quando nos esforçamos tanto, quando sofremos tanto buscando alguma graça para obter algum bem material ou espiritual e não a conseguimos... E tudo isso poderia ser evitado por uma fiel submissão a Nosso Senhor. Temos que reconhecer sempre a nossa miséria e incapacidade, mas não só intelectualmente: precisamos viver conforme esta verdade. Precisamos clamar a Deus com humildade e não com imposição; precisamos ser gratos a Deus por tudo o que temos e não orgulharmo-nos daquilo que supostamente conquistamos com nossas forças; devemos reconhecer a grandeza do próximo, olhá-lo como um igual, mesmo que seja o homem mais miserável do mundo, porque devemos saber no fundo de nosso coração que sem Deus estaríamos muito pior que ele. E isto não deve ser ocasião de angústia para nós: muito pelo contrário, deve nos dar uma santa liberdade porque já não nos angustiaremos quando falharmos, já vamos ter a noção de que tudo deve ser feito de acordo com a Vontade de Deus, que é muito mais perfeita que a minha. Tudo isso, no entanto, pode parecer esmagador para nós, se não considerarmos o outro aspecto de que o mistério da Ascensão nos fala.

Se devemos ter humildade porque homem algum sobe ao céu senão pelo auxílio divino, devemos ter muita esperança de subir ao céu, porque Deus, Quem pode nos dar o céu, quer que subamos até lá muito mais que nós o queremos. Subir ao céu aqui não é só a salvação, mas também a nossa santificação mesmo, nossa união com Nosso Senhor que já deve começar aqui na terra, embora não seja da mesma maneira que no céu. Vejam que ao mesmo tempo que a Ascensão mostra que a humanidade só pode ser elevada pela divindade, mostra também que Deus se interessa por nós e nos eleva! Deus Onipotente se abaixa até nossa natureza pequenina para elevá-la até Ele, para trazê-la para perto de Si. Nosso Senhor quer-nos seus amigos! Ele vê as suas belas criaturas, vê a Sua própria imagem em nós e quer elevar-nos ainda mais. Só o fato de sermos imagem de Deus pela racionalidade da nossa alma já nos dá uma dignidade imensa, mas Deus quis elevar nossa dignidade ainda mais: deu-nos um Salvador que uniu a natureza divina à humana, porque ama tanto a humana que quis ficar junto dela. Vejam que Ele quis sofrer por nós durante toda a Sua vida, para que pudesse viver como nós, "conhecer"(entre aspas porque Deus sabe de tudo, não precisando se encarnar para de fato conhecer nossa vida) nossas dores e nossas alegrias. No ápice de Sua vida, tomou nossos pecados todos para expiar na Santa Cruz, sofrendo em sua perfeita humanidade por cada um de nós em particular. Sim, não só pela humanidade, mas por cada ente humano, sendo que se eu fosse o único homem a ser salvo, Ele teria feito o mesmo sacrifício. Ressuscitou ao terceiro dia para mostrar-nos o plano de vida nova que tem para nós, manifestando sua misericórdia mesmo depois de O termos abandonado. E, finalmente, depois dos quarenta dias, subiu aos céus. Nosso Senhor poderia, depois de terminada sua missão, despojar-se de Sua humanidade e tornar-se puro Deus novamente. Mas Ele a ama muito para largá-la! Quis ficar por toda a eternidade unido à Sua humanidade e isto é sinal do seu enorme desejo de que nós também nos unamos a Ele. Vejam quanta alegria não nos deve dar o mistério da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo! Ele não veio até nós como um rei orgulhoso fala com os pobres, como quem tem nojo e não assumiu nossa natureza como que vestindo uma roupa suja e desprezível; de fato, somos pobrezinhos e nossa natureza é indigna de ser assumida por Deus, mas Ele o quis fazer porque nos ama muito! E não quis só vesti-la e largá-la depois, mas quis ficar vestido com ela por toda a eternidade! Por isso, podemos hoje conversar com um Deus que é também homem. Podemos ser seus amigos porque, assumindo nossa natureza, Ele se coloca ao nosso lado. Ele continua acima de nós como Senhor Supremo porque é Deus, mas também está ao nosso lado como nosso amigo. Quanta ternura não tem Nosso Senhor para conosco! Por isso, não tenhamos nunca medo de Deus. Nunca o desprezemos, porque Ele nos ama muito! E também nunca nos desprezemos, nem a nós nem aos outros homens pelo mesmo motivo... Devemos participar do amor de Deus por nós e pelos nossos irmãos, porque Ele nos fez belos por natureza e a embeleza ainda mais fazendo-nos partícipes de Sua vida divina.

Meditemos com muito amor, com muito cuidado sobre o mistério de hoje. Colhamos os presentes que Deus quer nos dar. Deus abençoe a todos! Bom domingo e boa semana!

domingo, 17 de maio de 2020

O outro, dom de Deus



A nossa vida cristã traz consigo muitas responsabilidades. Precisamos rezar, ir à missa(que também é rezar), lutar contra o pecado, criar um laço de amizade com Nosso Amado Jesus e buscar que o próximo faça o mesmo. Todas essas coisas devemos fazer sempre com um espírito sobrenatural, com a intenção de agradar a Deus em tudo, com muita caridade. Nós sabemos, porém, que as circunstâncias são, às vezes, difíceis para nós e nos tentam a enxergarmos as nossas responsabilidades para com Deus e com o próximo como um  peso. Venho aqui hoje falar contra essa tentação. Jesus nos convida a carregar seu fardo leve e seu jugo suave. Portanto, a vida de discípulo de Cristo não combina com fardos impossíveis de se carregar. Uma coisa que pode nos ajudar muito a tornar tudo mais leve é esforçarmo-nos por enxergar tudo e todos como grandes presentes de Deus: a Eucaristia, os santos, a Trindade, os homens que nos cercam e mesmo as tribulações.

É importante recordarmo-nos sempre do amor de Deus por nós e de que sua providência é sempre uma maneira amorosa de conduzir as coisas. Assim, tudo o que nos acontece ou nos aparece, absolutamente tudo, Deus o quer ou o permite por amor a nós, porque Ele quer, com aquela pessoa, com aquela situação, nos fazer bem. A própria Bondade não consegue agir senão gerando, propagando o bem e isso nos chama a nos sentirmos amados por Ela a todo momento, em cada situação e em cada pessoa. Devemos enxergar a nós mesmos e aos que nos cercam como grandes presentes de Deus, para nós mesmos e para os outros. Nossa busca de santidade, na verdade, consiste em se tornar a cada dia um presente mais valioso a Nosso Senhor e aos nossos irmãos e nos doar como verdadeiros presentes a eles. Mas é muito interessante também, e é esse o escopo de estarmos aqui hoje, enxergarmos o que está fora de nós como dons, como presentes para nós. Quem é que não cuida bem das próprias coisas? Quando ganhamos algo precioso como um carro, um celular, um objeto de valor, sempre o cuidamos bem (ainda mais se quem nos deu foi alguém que nos ama muito). Assim, devemos ter um zelo muito terno por toda a criação, especialmente pelas pessoas, criaturas mais preciosas de Deus e por Jesus, maior presente de Deus Pai para nós, que veio viver conosco e continua vivendo na Eucaristia, doando-se todos os dias por nós, atualizando Seu sacrifício na cruz.

Quando enxergamos o que está fora de nós como presentes de Deus, como algo feito para nós, fica difícil não nos envolvermos com aquilo. Às vezes, a tentação do peso é um certo orgulho que quer olhar tudo de cima, que não quer abaixar-se aos outros para ajudá-los, para cuidar deles, para se envolver com eles. Pode-se pensar: "quero amar somente a Deus e todas as outras coisas só por causa dele. Tudo quero amar só por causa de Deus. Então, não posso deixar que meus afetos sejam dados as criaturas, porque só Deus tem direito a eles. Não posso me permitir envolver-me com elas." Isto é um erro. De fato, o maior afeto, o maior amor, se deve somente a Deus, porque a Ele nós amamos sobre todas as coisas, sobre todas as criaturas. Mas nosso amor caridade deve ser uma participação do amor divino, e este amor divino não tem medo de se envolver com as criaturas. Não tinha Jesus a São João, a quem Ele permitia que encostasse a cabeça em seu peito e escutasse as batidas do Seu Sagrado Coração? E não quer ter a nós e a toda a humanidade? Nosso Senhor anseia nós. Ele nos quer perto de si. É natural, ou melhor, sobrenatural que nos preocupemos com os homens, que nossos afetos sejam estendidos a toda a humanidade. Quando Jesus viu a multidão com fome, o que aconteceu? Ele fez uma reflexão teológica, indo de premissa em premissa até ver que o correto era que desse de comer àquelas pessoas? Não. Ele sentiu compaixão.(Mt 14, 14) Não tenhamos medo de sentir compaixão também, não tenhamos medo de sentir afeto, prazer pela companhia de alguém, até certo apego. O que não deve haver em nós é um apego desordenado às criaturas, não qualquer apego. 

Há, de fato, uma grande tendência ao sentimentalismo na nossa época, que diz que "o importante é se sentir bem". Não é esse, de fato, o mais importante. É importante é Cristo e a vivência do Seu amor, como diz um grande padre conhecido diante de afirmações semelhantes. Mas é humano sentir e Deus fala a todo o homem, não só à sua inteligência e à sua vontade. A insensibilidade não é uma virtude, mas um vício, então temos que tomar muito cuidado para não cairmos nela. Lembremo-nos do que Deus disse a Israel: "tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um novo coração de carne."(Ez 36, 26) A nossa conversão não consiste em deixarmos de ter sentimentos e paixões, mas em ordená-los segundo a Vontade de Deus. Claro, se eu sinto algo que vai contra os mandamentos, a Vontade de Deus, tenho que lutar para não consentir naquilo, mas não quer dizer que nossos sentimentos sejam maus em si, muito pelo contrário: são criaturas de Deus e devem ser queridas por nós. Assim, devemos nos permitir sentir afeto por Deus e pelos homens, se de fato os enxergamos como bens e nós os enxergaremos como bens se de fato os amamos. De fato, o amor é um ato da vontade. Mas a prática do amor autêntico, com o tempo, vai elevando a Deus também os nossos afetos, os nossos sentimentos e tudo o que há em nós. Afinal, devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo nosso ser, com todo o nosso entendimento, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma e com todo o nosso coração(Lc 10, 27). E este coração é o mesmo com que amamos a nós, ao próximo e às outras criaturas.

Sem essa noção de dom, de preciosidade, da grandeza do outro, fica muito difícil conseguir viver bem o cristianismo. Fica muito difícil crescer tanto na caridade para com Deus, quanto para com o próximo e para com nós mesmos. Pois se não enxergo a preciosidade dos homens, que são imagem de Deus, muito dificilmente será Deus precioso para mim. Se não enxergo Jesus como meu precioso amigo, fica muito difícil fazer oração, adorar e fazer penitência  com amor. Tudo isso vai parecer uma multidão de atos unicamente de justiça, de um "vejo que este é o certo, portanto o faço." Isso é tudo válido, é tudo lícito. Não é pecado. Mas é um amor muito imperfeito ainda. Temos de nos esforçar para ultrapassar isso. Temos de nos esforçar para rezar sabendo que Deus nos espera e que conversarmos com Ele o agrada muito. Precisamos tentar dar esmola porque queremos que aquela pessoa tenha seu alimento, que ela possa comer; tentar levar Cristo aos homens porque eu sei que Ele é o maior bem que eles podem ter nesta vida e na outra, o único modo de serem felizes. Tenho que me esforçar para que minhas boas obras não sejam feitas simplesmente porque são minha obrigação. Temos de nos esforçar para amarmos desinteressadamente. E essa perspectiva de dom pode nos ajudar a isso, para nos colocar junto com o outro, ou até abaixo dele. Porque, como disse antes, há um certo orgulho em não se permitir ter afetos pelo que está fora de nós, um certo egoísmo também. Se não encaro a oração como uma graça que Deus me concede, um presente que Ele me dá de se dispor a me ouvir, vai parecer, na verdade, que, quando faço oração, estou dando esmolas a Ele. Assim com nosso próximo. Vai parecer sempre que sou um superior dando migalhas a um inferior quando não deve ser assim, pois somos irmãos, ou somos ao menos chamados a sê-lo, se um de nós não for batizado. Mas a questão é somos iguais. Se já é problemático isso com o próximo, que dirá com Deus, que é a fonte de todo o bem, que é o Governante Supremo do universo, de quem somos pobres filinhos? Muito amados, é verdade, mas muito pobres também. Temos que ter espírito de pobreza, de humildade: não somos nada. A oração é para nós fonte de graças das quais necessitamos absurdamente para a mínima boa ação, para o mínimo bem. As boas obras são formas de cuidar daqueles preciosos dons que Deus nos deu, os homens, além de serem também fonte de graças para nós, fonte de santidade. 

Evitemos, irmãos, o orgulho e o egoísmo. Lembremo-nos da nossa pequenez, da nossa miséria, do quanto somos necessitados de Deus e até das criaturas, pelas quais Deus nos distribui graças. Aquele velho ditado da vovozinha, que a gente tende a achar que é besteira, é muito sábio, na verdade: precisamos até do capim da rua. Não podemos desprezar nada nem ninguém... Evitemos também o excessivo fechamento em nós mesmos. Deus, que é Ele mesmo grande dom para nós, e os homens querem ou precisam do nosso amor, apesar de pequeno e pobrezinho. Lembremos sempre, também, que somos nós mesmos dons de Deus para nós e para os outros e devemos nos amar muito, apesar de nossa miséria, porque Deus também nos ama. Deus abençoe a todos! Um bom domingo e uma boa semana!

São José na Sagrada Escritura

  São José é mencionado nos Evangelhos apenas 14 vezes, em cerca de 43 versículos (Mt ...