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domingo, 5 de julho de 2020

Música Litúrgica


História de Santa Cecília - Santos e Ícones Católicos - Cruz Terra ...
            A música estava intimamente ligada com a nossa fé desde as primeiras comunidades cristãs. Na carta de São Paulo aos Efésios, o Apóstolo de Cristo exorta a comunidade: “falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e em tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5, 19-20). É interessante o fato de o Apóstolo colocar o coração como o lugar de dar graças a Deus, cantando e louvando. Longe de qualquer euforia exterior, na Santa Missa, o nosso coração deve ser um verdadeiro templo de ação de graças.
Queridos irmãos músicos, quando exercemos o serviço dentro da liturgia, precisamos ter esclarecido no nosso coração a sua finalidade. O Papa João Paulo II, ao escrever um Quirógrafo em comemoração ao centenário do Motu Proprio Tra Le Sollecitudini, lembra que “São Pio X apresenta a música como um meio de elevação do espírito a Deus, e como ajuda para os fiéis na participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”. Papa João Paulo II, quer nos lembrar pelas palavras de São Pio X, que a música causa um impacto tão grande na alma que ela pode ser meio de elevação do espírito, ou seja, a música pode ajudar a quebrar o “gelo do nosso coração”, e ainda mais: a música é capaz de atingir até mesmo as almas tíbias. Além disto, a música na liturgia precisa proporcionar “a participação ativa dos fiéis”, essa participação não pode ser resumida ao simples fato da assembleia saber o canto, isto seria diminuir o que realmente a Igreja nos propõe. Devemos entender que no fato de o fiel ouvir e interiorizar a PALAVRA que está sendo CANTADA e alcançar uma verdadeira contrição e assim render graças a Deus em seu coração, a música na liturgia atinge o seu objetivo. É importante este esclarecimento, pois podemos cair no engano de achar que o fiel só está participando ativamente se este souber acompanhar todo o canto. Na Santa Missa, a escuta é uma forma de participação.
A liturgia tem como objetivo a “Glória de Deus e a santificação e a edificação dos fiéis”. Tendo em mente e guardando no nosso coração esta verdade, é necessário muito discernimento para a escolha dos cânticos e nunca perder de vista o objetivo da sagrada liturgia. Mas, como podemos dar glórias a Deus e ajudar na edificação dos fiéis? É importante, caros irmãos, entendermos que na Santa Missa celebramos o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo, o primeiro passo é escolher um repertório que não obscureça o caráter sacrificial que celebramos, é de suma importância manter a serenidade. Outro problema comum que ocorre em nossas igrejas é o barulho excessivo. Devemos ter cuidado! Vivemos em um mundo extremamente barulhento e precisamos seguir o exemplo de Nosso Senhor que se retira para lugares silenciosos para ter maior intimidade com o Pai. Queridos irmãos músicos, nós não podemos tirar o direito dos fiéis de escutar a Deus no silêncio, devemos ter cuidado com o volume dos microfones e instrumentos, além de evitar ficar “passando o som” poucos minutos antes da Missa, pois precisamos respeitar os fiéis que tem o valioso habito de rezar antes da Celebração Eucarística.
Outra atitude importante para o bom serviço é a pontualidade dos músicos. Marque com o seu ministério tempo o suficiente para passar o som, organizar os lugares, afinar o instrumento, rezar, e ainda sobrar bons minutos para se guardar o silencio para melhor concentração do grupo. Caro irmão, você também tem uma alma! Não deixe de viver a Santa Missa por conta do serviço. É claro que quem canta sofre certas aflições até mesmo por imprevistos que acontecem, porém, com organização antecipada, podemos diminuir esses imprevistos e melhorar a qualidade de nossa oração.  
Acrescentar mais eficácia ao texto é outra característica da música litúrgica relembrada no quirógrafo do Papa João Paulo II. Isto significa que para a Santa Missa, a música não pode destacar a si mesma, então devemos ter cuidado com harmonias e ritmos exagerados. É bom que a estrutura das músicas cantadas nas Celebrações Eucarísticas respeite uma hierarquia na seguinte ordem: melodia, harmonia e ritmo, pois quando a harmonia ou o ritmo ultrapassam a melodia, o texto que está sendo cantado corre o risco de ser ofuscado. Algumas músicas até mesmo tecnicamente difíceis, nem sempre se encaixam no contexto do rito, podendo atrapalhar a compreensão da Palavra. Outra coisa com que devemos ter cuidado - e todos nós músicos estamos expostos a este sentimento - é o estrelismo. Vou explicar melhor... Todos nós podemos cair na tentação de escolher certos repertórios não para cantar a PALAVRA, mais apenas para cantar uma música que a “minha voz seja exaltada”. Irmãos, nós músicos estamos expostos a pecados como a vanglória e o orgulho, para combatermos, devemos sempre ter em nosso coração a vontade do serviço, dedicando as nossas forças para a finalidade da liturgia, por isto, não descuide da vida de oração! Devemos sempre pedir a Deus a graça da humildade.
No texto passado, falei que o Canto Gregoriano é o canto oficial da Igreja. Talvez você nem saiba o que é o canto gregoriano. Convido você a tirar um tempo para escutar este estilo. Indico a Missa Orbis Facto. Perceba como o texto é valorizado e como a melodia está totalmente submissa ao texto. No Motu próprio Tra Le Sollecitudini de Pio X, prescreve-se que “uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana”. Algumas pessoas podem questionar se a Constituição Sacrosanctum Concilium não modificaria isto e a resposta é NÃO. Na Sacrosanctum Concilium o Canto Gregoriano continua como o canto oficial da Igreja, e isto se confirma no Quirógrafo escrito pelo Papa João Paulo II (pós-concilio). Outra dúvida que possa surgir é: “só pode ser cantado o canto gregoriano na Missa?” e a resposta também é NÃO. O que a Igreja nos orienta é que o canto se aproxime do estilo gregoriano. Para lhe ajudar a escolher o seu repertório, gostaria de destacar três características do canto gregoriano: a primeira é a primazia da PALAVRA, a segunda e a terceira são a leveza e a serenidade das melodias.
Caros irmãos espero ter vos ajudado a entender mais sobre a finalidade da música na liturgia. Agradeço a Deus por cada pessoa que se dedica a este serviço e peço a graça para que nós músicos, possamos ajudar a música litúrgica alcançar a sua finalidade. Deus vos abençoe!
Por Taynara Sousa

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Para que cantamos?


Talvez seja para festejar, declarar a um amor, para dançar, ou simplesmente para cantar... Santo Agostinho em uma conversa com seu filho Adeodato, fez esta pergunta “para que cantamos?”, o filho não soube responder e perguntou “para que cantamos papai?” Agostinho respondeu “cantamos para recordar”. O Santo se referia a uma técnica chamada tropo, utilizada para recordar os textos através das melodias e as melodias através dos textos. A música na liturgia tem esta função de recordar, trazer de volta ao coração, lembrar o amor de Deus para com o seu povo e de forma simples e humana, louvar e recordar a Deus o seu amor (mesmo que Ele nunca esqueça!) como diz o salmista “levante-te Deus, nós cantaremos e tocaremos ao teu poder”.
A música sempre esteve presente. Desde o Antigo testamento, o povo de Deus, após ver as grandes maravilhas do Senhor, no episódio da libertação do cativeiro do Egito, cantava para exaltar a grandeza de Deus. Na Santa Missa não é diferente, podemos pensar na oração do Santo. Neste momento o céu e a terra se unem “em uma só voz” para louvar o três vezes Santo (Deus Pai). Aqui já podemos entender o motivo que esta oração quando cantada deve seguir fielmente a oração do Missal.
Já no Novo Testamento, Maria Santíssima, na visita a sua prima Isabel, não poderia se expressar de outra forma: era muita felicidade! Algo grandioso! Uma eternidade dentro do seu ventre! O nosso céu estava nela! A esperança do mundo! Muito maior que a libertação do povo do Egito... Era necessário mais que falar... Era preciso cantar a palavra, então Maria cantou. Não poderia ser de outra forma. É emocionante imaginar que o colo de Maria Santíssima e as suas doces canções, fizeram o menino Deus adormecer. A música é elevada no seu mais alto nível, quando esta embala as coisas do eterno. A música foi feita para o eterno.
A música aquece o coração e ajuda a alma se render ao amor de Deus. Engana-se quem acha que já não há o que refletir sobre a música litúrgica, que os documentos já disseram tudo. Os documentos nos dão orientações que devem ser estudadas e acolhidas com muito zelo, porém, a música sempre refletirá a espiritualidade e a cultura dos seus emissores. Muitos falam “precisamos de boa música nas missas”, ou “a melhor música e do compositor X ou Y, feita no período Z ou pela comunidade D”... Contudo, gostaria de convidar você, caro leitor, a conversarmos não sobre os melhores parâmetros para a música na liturgia, o que daria muita discussão, mas a refletir “qual seria a melhor atitude de um músico?”, mas não um músico comum: um músico católico, que exerce um verdadeiro ministério na Santa Missa e que por meio da sua música busca louvar a Deus e ajudar os irmãos a elevar o seu coração ao Divino.
A atitude que eu gostaria de propor para refletirmos (e precisa ser a primeira, deixar essa para outra colocação pode ser perigoso) é a humildade. Quando chegamos em nossas paróquias, geralmente encontramos pessoas que exercem o serviço na música, e é comum dentro de nossos grupos de liturgia as divergências, principalmente quando ocorre uma correção fraterna. O músico tende a se sentir humilhado... Para isso, é necessário humildade, seja na correção, seja na escuta. A humildade nos ajuda a aprender com o outro, mesmo que este outro aparentemente não tenha nada a me ensinar. A humildade também nos ajuda a enxergar a comunidade que está ali celebrando, fazer coisas tecnicamente difíceis, (a polifonia mais enrolada, o canto gregoriano mais melismático possível...), mas que soe totalmente sem sentido, pode atrapalhar a assembleia, isto é grave! Da mesma forma que cantar músicas que em nada se encaixam para o momento da Santa Missa, em nome de agradar a assembleia celebrante, como se o Cristo não fosse o centro da liturgia, é mais grave ainda! Para isso, meus irmãos, a Igreja nos convida ao bom senso. Mas como ter bom senso sem saber o que os documentos nos orientam? É imprescindível o estudo para entender o Espírito da Liturgia. E para que estudar se faltar a humildade e cair na arrogância  intelectual ao ponto de não ver a Deus nas coisas simples? Coisas estas que muitas vezes nos comovem, mas por orgulho podemos fingir não enxergar a Deus. Enquanto não houver vontade de servir a Deus com uma verdadeira humildade, a Igreja dará caminhos em seus documentos que serão ignorados pela grande maioria dos nossos músicos.
A humildade, os estudos (não só das técnicas musicais, mas dos documentos que nos falam sobre liturgia) e o bom senso nos ajudarão a fazer boas escolhas para melhor celebrar o mistério da Santa Missa... Vale lembrar que em toda Santa Missa celebramos o sacrifício do nosso Santíssimo Redentor, isto nos faz entender que em hipótese alguma podemos pensar a música na Santa Missa como um entretenimento para a assembleia. O Motu Proprio Tra Le Sollicitudini de Pio X, assim como a Constituição Sacrosanctum Concilium do Concilio Vaticano II não deixam dúvidas que é preciso ter PRUDÊNCIA na escolha dos cânticos, estes devem ajudar a alma a alcançar uma verdadeira contrição e se preparar para o encontro com o amado. A Igreja no seu zelo e amor de mãe nos coloca como grande modelo o canto gregoriano que é justamente O CANTO OFICIAL DA IGREJA.
Outra orientação que me parece bem relevante para verdadeiramente conseguirmos cantar a Missa e não cantar na Missa é a observação das antífonas do dia, que podem ser encontradas no Missal... Caso você não saiba manusear o Missal, ou até mesmo não saiba o que é Missal, não se apavore! Peça ajuda do seu pároco ou até mesmo do sacristão, acólito ou coroinha. Cuidado com os “liturgistas”, nem toda a formação litúrgica é segura, cuidado também com a pressa na hora de propor as mudanças. Não fique desanimado caso o repertório que você canta não seja aquilo que a Igreja propõe. Mude aos poucos, com paciência, para evitar o desânimo. Mas não deixe de tentar! Anime o seu ministério para fazer o mesmo: rezar (a primeira mudança é do coração), estudar e aumentar o repertório. Pode parecer difícil no começo, mas com oração, humildade e vontade tudo dará certo. Caso os irmãos paroquianos perguntem “de onde você tirou esse canto?” Nada se chateação ou desânimo! Fale com alegria e humildade que você e seu ministério/grupo litúrgico estão se dedicando a estudar este novo repertório e tenha a paciência de explicar/conversar sobre, assim você ajudará o Povo de Deus a amar e a entender a música litúrgica.
Aconselho o Livro o “Espírito da Música” que é um pedaço de uma obra do Papa Bento XVI, além dos estudos dos documentos: Motu Proprio Tra Le Sollicitudini de Pio X, Carta Encíclica Mediador Dei e Musicae Sacrae Disciplina do Papa Pio XII, Constituição Sacrosanctum Concilium do Concilio Vaticano II. É bom seguir uma ordem, pois vejo pessoas comparando o Motu Proprio Tra Le Sollicitudini com a Sacrosanctum Concilium sem considerar o processo que ocorreu. Isto pode causar interpretações equivocadas.
Para os que têm interesse em se aprofundar na leitura do canto gregoriano (neumas) um livro importante é o de Dom Eugène Cardine Primeiro Ano de Canto Gregoriano e Semiologia Gregoriana. É importante conhecer também a história de Santa Hildegarda, monja da Idade Média e grande compositora, sua vida cristã pode nos ajudar bastante. Que Deus nos ilumine e que “Non nobis Domine, non nobis, sed nomine tuo da gloriam”, “Não a nós Senhor, não a nós, mas ao Teu nome seja dada a glória”.

 Por Taynara Sousa

São José na Sagrada Escritura

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