domingo, 13 de setembro de 2020

Como o homem é, assim será seu amigo

 


"Quem teme o Senhor terá também uma excelente amizade, pois seu amigo lhe será semelhante."

Eclesiástico 6, 17

            O sentido mais próprio, por assim dizer, desta passagem do fantástico livro do Eclesiástico é que Deus recompensa o justo com amigos justos também. Mas não é este o sentido do qual vamos falar hoje em nossa pequena reflexão. Queremos falar, na verdade, sobre a amizade como instrumento de Deus para o justo beneficiar seu próximo. Assim, falaremos sobre a tranquilidade que podemos ter em relação ao nosso testemunho no meio do mundo através das amizades e sobre a responsabilidade que temos de alcançar o máximo grau de perfeição possível, a fim de transbordar aos que estão à nossa volta o Amor que habita em nós.

            Há muitos de nós que se inquietam com a realidade à sua volta por verem tantas pessoas longe de Deus. Esta inquietação, até certo nível, é saudável e até necessária pois, se realmente amamos o nosso próximo, queremos que ele encontre de verdade Nosso Senhor e se salve. Assim, quem tem esta inquietação, tem também o desejo de levar as pessoas para Deus. O problema é quando este bom desejo se corrompe em fundamentalismo, muitas vezes ocasionado por escrúpulos, e a pessoa não consegue ter paciência ou prudência: precisa repreender qualquer um que se vista de modo impudico, que fale algo que não se encaixa em nossa fé ou qualquer coisa, tenta teimosamente convencer os outros da verdade católica a despeito do fechamento dos corações alheios e, ao contrário de sua bela intenção, leva os outros e a si mesmo ao pecado: os outros às blasfêmias, à irritação, assim como ele mesmo se irrita e corre o risco de julgar os outros. Isto acontece por ele, com a melhor das intenções, ter jogado pérolas aos porcos devido à sua imprudência. Nós vemos com frequência coisas assim pela internet, especialmente nas redes sociais, com pessoas empreendendo debates infrutíferos com ateus, abortistas, defensores do casamento homossexual, comunistas, protestantes, etc. Essas atitudes são geralmente tomadas pelos mais jovens que, sem perceber, podem estar encarando a religião como uma simples ideologia a ser propagada e aceita pelos demais, não aplicando corretamente o princípio do amor ao próximo.

Não digo que temos que nos calar perante todas as situações, digo que temos que saber falar e saber calar, saber fazer o que o amor exige naquele momento, como falava semana passada. Às vezes nosso silêncio diante de uma situação pode levar os outros ao escândalo e às vezes é a nossa manifestação que pode escandalizar. O que fazer então? Como saber o que fazer? Não há uma regra pronta, uma fórmula onde nós só precisamos encaixar as variáveis, como na física. Precisamos analisar cada caso real como único e, com confiança em Deus, fazer aquilo que, à luz da doutrina católica e da razão iluminada pela graça, nos parece melhor para a glória de Deus e o proveito dos homens.

Mas por que falar de tudo isso num texto sobre amizade? Porque este é um dos meios mais preciosos para se levar os outros a Deus, que é o objetivo de quem comete os erros que mencionei acima e porque estas questões são fonte de inquietação, ansiedade e escrúpulos para muitas pessoas e gostaria de aproveitar a oportunidade para tentar ajudar um pouquinho àqueles que sofrem com estas dificuldades. Vamos, pois, ao que mais nos interessa.

Vejam: quem teme ao Senhor terá amigos semelhantes a si. Isto quer dizer que, como disse antes, através da amizade, o temor e o amor que temos por Deus pode transbordar àqueles à nossa volta. Isto pode ser algo para confortar os corações daqueles que sofrem dos males de que falamos acima.

Para vivermos isto, devemos ter, primeiro, um grande sentido sobrenatural. Devemos saber que as penitências, os sacrifícios e orações que fazemos pelos outros são ouvidos por Deus. “É impossível de perecer um filho de tantas lágrimas”, foi o que um bispo disse, muito prudentemente, como relata Santo Agostinho, à sua mãe Santa Mônica, angustiada por ele estar envolto na heresia e impiedade. Deus escuta nossas orações pelos outros. Afinal, não está Ele muito mais interessado que nós na conversão do nosso próximo? Não foi Ele quem deu Sua vida na Cruz por todos e por cada um de nós, pobres pecadores? Tenhamos confiança na Sua Misericórdia e rezemos muito por nós e pelos outros.

Depois, é necessário que nosso amor se manifeste concretamente em nossas obras. Afinal, não é a amizade um tipo de amor? Devemos ser, na medida do possível, um Alter Christus para os homens (evidentemente, cada um de acordo com seu estado de vida, sendo os ministros ordenados outros Cristos de maneira essencialmente diferente de nós, leigos), estando ao lado deles não para sermos servidos, mas para servi-los em suas necessidades materiais e espirituais. Esta amizade, este testemunho, faz com que resplandeçamos a Face de Cristo para o nosso próximo, fazendo-o, de certa forma, conhece-Lo. E isto fala muito de Deus, às vezes mais do que as palavras, às quais o coração humano pode estar fechado. Como São Francisco de Assis disse, nossa vida pode ser o único Evangelho que muitas pessoas vão ler na delas. Isto pode confortar os escrupulosos, mas deve também chamar os tíbios à conversão: vejam quão grave é o nosso dever de praticar boas obras, de dar um bom testemunho de católicos! Disso pode depender a salvação das almas e, mesmo que seja só de uma, já não é o suficiente para nos esforçarmos ao máximo por isso, como o Bom Pastor que deixa as noventa e nove ovelhas para procurar a perdida?

Enfim, temos as conversas sobre a nossa fé. As pessoas não viram cristãs “por osmose”. É verdade que o testemunho de um santo pode levar muitas pessoas à conversão, mas devemos estar também sempre prontos para dar as razões da nossa esperança, como diz São Pedro, além de que, no mundo em que vivemos hoje em que nossa amada mãe Igreja é tão maltratada pelos homens, poucos a conhecem de verdade. Como disse o Venerável Fulton Sheen: “sequer cem pessoas odeiam a Igreja: mas milhões odeiam o que acham que a Igreja é.” Por isso, faz-se necessária a nossa formação, para que conheçamos com profundidade a nossa fé, e as conversas com nossos amigos, para que eles também possam conhecê-la de verdade. Claro, estas conversas devem sempre ocorrer com aquela prudência de que falamos acima, isto se a prudência permitir que elas ocorram, pois são muitos aqueles que não têm o coração preparado para receber a verdade e, neste sentido, as nossas orações e o testemunho que damos podem ajudar.

É esta, meus amigos, minha pequenina contribuição de hoje. Se gostaram do que leram e se acham que pode ajudar alguém, compartilhem em suas redes sociais e com seus amigos. Deus abençoe a todos! Que Nossa Senhora nos torne grandes amigos de Cristo e dos homens!

domingo, 6 de setembro de 2020

A única coisa necessária

 


            Depois de um breve período parados, é bom estarmos de volta com os nossos textos! Peço perdão pela ausência durante este tempo. Esta ausência não foi por falta de ideias, tanto que a ideia para este texto estava em minha mente já há algum tempo, mas por dificuldades que encontrei para sentar e escrever. Vamos, então, ao que interessa!

            A maioria de nós já deve conhecer a famosa cena do Evangelho em que Nosso Senhor repreende a agitada Marta e defende sua irmã, Maria, dizendo que “uma só coisa é necessária” (Lc 10,42). O que seria então essa coisa? Digo que é o amor, o amor a Deus e ao próximo em toda a nossa vida e em cada momento dela. Às vezes vivemos uma vida de tantas preocupações que dificilmente nos ocupamos de fato. E às vezes são preocupações não só lícitas, mas boas, como a salvação da nossa alma e a das almas dos outros, ajudar alguém que precisa, fazer alguma obrigação, e tantas outras coisas. O problema é que, se nos deixamos levar por isso, nossa mente fica perturbada e nosso espírito desorganizado: vemos uma imensidão de afazeres e de responsabilidades e não sabemos qual fazer primeiro, então começamos um, paramos e passamos a outro, então voltamos àquele... Assim, nem nosso dia rende, nem nós ficamos saudáveis e a nossa intenção que era servir a Deus não se concretiza. Gostaria de falar sobre isso hoje.

            Disse que é necessário o amor em toda a nossa vida e em cada momento dela. Comecemos pela primeira parte. O que quero dizer com “amor em toda a nossa vida”? Quero dizer que ele deve ser como que um princípio ordenador dela, como que a sua alma. Olhando nossa vida “de longe”, como uma linha cheia de pequenos pontos, devemos pensar no amor como um princípio que une todos os pontos, que os permite permanecer juntos, coesos e apontando numa mesma direção, que é a direção do céu. Assim, todas as decisões que vão moldar esta vida, esta linha, devem levar em consideração o amor e devem deixar que Deus o coloque nela para que ela permaneça uma e harmônica. Todos os nossos planos, os nossos objetivos, as nossas decisões que definem o curso da nossa vida devem ser impregnados de amor, devem ser por amor, com amor e para o Amor. Poderíamos usar uma outra imagem: a imagem de uma orquestra cujo maestro é o amor e a plateia é a Santíssima Trindade. Este maestro deve conduzir todos os instrumentos dando a eles a ordem necessária, mandando-os tocar cada um em seu momento e no devido tom, de acordo com a doce melodia que o maestro quer produzir para agradar a Nosso Senhor.

            Vamos agora para a segunda parte: “o amor é necessário em cada momento de nossa vida”. Se antes nos referíamos ao princípio que ordena a reta que representa a nossa vida, mantendo os pontos coesos, agora nos referimos aos pontos em si. Não adianta termos grandes decisões, grandes propósitos de amar a Deus e ter este princípio ordenador se não damos a ele o que ordenar, se não temos atitudes concretas de caridade. Talvez seja esse o principal ponto para nós hoje. Sabemos todos que o amor de Deus deve ser o nosso Norte, o nosso farol, mas será que, de fato, estamos caminhando para esta direção? Não me refiro aqui às nossas misérias, que são desvios deste caminho e espinho na carne que todos aqueles que amam a Deus têm de sofrer, mas me refiro aos passos concretos que devemos dar na direção que o amor nos aponta. Por exemplo, se dizemos que queremos ser grandes estudiosos por amor a Deus, estamos de fato estudando? Se queremos ser grandes pais, estamos empregando os meios necessários para a educação de nossos filhos nas situações concretas que nos aparecem? É nisso que devemos prestar atenção...

            Agora, se feri alguém com o que acabei de dizer, venho logo trazer o mertiolate, falando ainda do mesmo assunto. Quero falar a todos para que tenhamos muita calma, muita paz e serenidade! Ou vamos acabar sendo repreendidos por Nosso Senhor, como foi Marta, além de desenvolvermos tantas inquietações que pesarão muito em nossa vida. Façamos uma coisa de cada vez. Em cada momento de nossa vida, nos dediquemos ao que o amor nos pede naquele momento. Se vou rezar, que fiquem para lá os estudos, as contas a pagar, até os pecados! Não digo que estas coisas não devem aparecer na nossa oração, porque devem! Mas elas não podem ser o centro. A oração é nosso doce momento de encontro com Deus, é a parte do dia em que buscamos contemplar a Face daquele que nos habita. Não devemos ficar olhando para outras coisas, mas apresentá-las diante de Cristo, com quem estamos conversando. Assim também, quando formos estudar, não podemos pensar naquilo que estudamos e rezar vocal ou mentalmente ao mesmo tempo. Neste caso, devemos oferecer as nossas obras a Deus e nos concentrar nelas, podendo, claro, fazer pausas para contemplá-lo, mas lembrando que aquele é o momento do estudo, do trabalho, que é também importante para Deus, logo merece toda a nossa atenção.

            Voltando à imagem da orquestra, o maestro Amor ordena que cada um dos instrumentos toque a nota certa, no tom certo, no momento certo. Se a flauta tocar na hora do violão ou tocar a nota errada na hora certa, a música vai desagradar aos ouvidos! Por isso, necessitamos, em nossa vida, de ordem, de harmonia para poder amar.

Unidade, harmonia. Uma só coisa é necessária em toda a vida e em toda ela. O amor é necessário em toda ela e, em cada momento, aquilo que o amor exige nele é necessário. O amor harmoniza, unifica todos os instrumentos da orquestra da vida cristã. Ao mesmo tempo, ele exige que sejam feitas coisas tão diferentes e que sejam cada uma a seu tempo: cada músico com seu instrumento e cada instrumento no correto momento da música do amor divino. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo, ou a música soará terrivelmente mal. Ao contrário, cada coisa no seu tempo para uma melodia agradável a Jesus.

Deus abençoe a todos! Obrigado por lerem até aqui! Que Nossa Senhora nos ajude a termos ordem em nossa vida!

domingo, 16 de agosto de 2020

Maria: a mais extraordinária das mulheres comuns

 

            Ontem, dia quinze de agosto foi dia da Assunção de Nossa Senhora, mas comemoramos no Brasil apenas hoje, no domingo após a data por não ser um feriado nacional e ser uma solenidade tão importante. A Assunção de Nossa Senhora, mistério que termina a sua vida, está relacionado completamente com seu início, na sua Imaculada Conceição e com o seu decorrer que, em santidade, só fica atrás de Nosso Senhor, pelo abismo que há entre Deus e criatura. Hoje, falaremos especialmente desta santa vivência, que foi extraordinariamente comum.

            Ora, dizer que Nossa Senhora é uma mulher comum é um grave erro, considerando todos os privilégios que Ela recebeu da graça divina: sua concepção sem pecado original e uma vida permeada pela misericórdia preventiva de Deus, que não a deixou cair em pecado algum como comentava há pouco, e o mais gritante: a maternidade do Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas há certa maneira de considerarmos sua vida como comum. Olhando para o Lar de Nazaré antes do início da vida pública de Jesus, podemos contemplar a Sagrada Família reunida: Jesus e José trabalhando na carpintaria e Maria cuidando da casa, preparando o almoço... tudo normal, comum se olharmos com olhos simplesmente humanos. Nossa Senhora tinha uma rotina de uma judia comum: rezava, meditava, trabalhava... Quem sabe algumas pessoas que morassem perto da casa da Família não notassem algo de diferente? Mas, pelo que vemos no Evangelho, nem a santidade perfeita de Nosso Senhor foi percebida pelos seus conterrâneos. Logo, torna-se muito difícil que tenha sido Ela percebida.

            E qual o ponto em que quero chegar? Em algo que gosto muito de enfatizar, e que já o foi tanto por grandes santos, como São Francisco de Sales e São Josemaria Escrivá: a grandeza da vida comum, da vida cotidiana. O cristão se santifica cumprindo bem os seus deveres. Para sermos santos, não é preciso fazermos coisas esquisitas. É verdade que é bem difícil que aqueles que convivem conosco, se procuramos seguir bem os ensinamentos de Deus e da Igreja, podem nos olhar como pertencentes a outro mundo, porque de fato, como diria Santo Agostinho, somos cidadãos celestes vivendo na Terra e aqueles que não o são estranharão nossas opiniões e nossas escolhas; e isto ainda mais no mundo secularizado e longe de Deus em que vivemos. Mas, o que devemos evitar é uma certa busca ativa por parecer diferente dos outros ou ainda certas coisas contrárias à prudência, virtude necessária para nossa santificação. Isto pode vir ora do orgulho, ora de certo escrúpulo que nos induz a fazermos coisas que não precisamos e que, às vezes, nem devíamos.

            Eu sou estudante. Se eu tenho uma prova amanhã, o que eu faço? Estudo para a prova e durmo cedo para descansar bem ou passo o dia e a noite inteira em oração por causa de uma pretensa inspiração divina e nem aprender, nem descansar, acabando por me dar mal na prova? Claro que a primeira opção. Nossa Senhora teve que tomar atitudes como esta na sua vida de Mãe e foram estas e outras atitudes as que a santificaram. Claro que ficar de pé junto à Cruz ou ser Virgem até a morte são coisas que mais nos chamam a atenção, mas a sua vivência cotidiana, seu cuidado com as pequenas coisas, com o sal que colocaria na comida e com a limpeza da casa foram também parte de sua vida e parte importante dela, pois foi cumprindo estes e outros deveres com amor que seu Imaculado Coração, já pleno de graça, como diz São Gabriel na saudação, foi se dilatando para amar ainda mais a Deus e foi se preparando para os grandes eventos de sua vida: a Encarnação do Verbo, o Seu nascimento, Sua Morte na Cruz, Sua Ressureição e Ascenção, o Pentecostes e, ao fim da vida dela, sua Assunção aos Céus e a sua Coroação como Rainha do Céu e da Terra.

            Falamos de como Nossa Senhora foi uma mulher comum. Mas por que seria ela a mais extraordinária das mulheres comuns? Sabemos de todos os seus privilégios, mas do que quero tratar no momento é da vivência extraordinária da sua vida comum. Como dizia antes, o cristão se santifica cumprindo bem os seus deveres. Maria, diferente de nós, cumpriu tudo o que Deus pediu a Ela. E não só cumpriu tudo, mas o fez com o máximo de perfeição possível, isto é, com o máximo de amor possível. Ela preparava cada refeição, realizava cada faxina com o maior amor que poderia dar. Isto não quer dizer que ela colocava grandes pesos psicológicos e imensa gravidade em cada coisa ou que não parava de pensar em Deus a cada momento, mas que, com a paz, a serenidade e a alegria que vêm de Deus ela realizou amorosamente suas tarefas e viveu sua vida. Dessa maneira, ela foi caminhando a cada dia, a cada segundo, para o Céu. Sua Assunção, ao fim de sua vida, foi uma síntese dela inteira, vivida toda voltada para o Eterno, mas vivida na história, no tempo.

            Vejam só mais uma coisa que acabo de me lembrar: Maria foi assunta aos céus, diferente de Jesus que ascendeu. Isto significa que, nesta síntese de sua vida, ela não subiu aos céus por força própria, mas foi levada por Deus. Assim também em sua vida cotidiana: ela dependeu da graça divina para todos os movimentos de amor que realizou em sua maravilhosa vida. Assim também nós, se quisermos imitar sua perfeição, devemos empregar todos os nossos esforços como ela o fez, mas confiando sempre na graça divina e sabendo que, sem ela, sem Deus, nada podemos fazer.

            Peçamos no dia de hoje a tão Boa Mãe, a graça de sermos, como Ela, muito humanos e muito divinos, que Ela nos ensine a viver como Ela viveu, como bons discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque é isto que a devoção à Ela e a contemplação de sua vida deve fazer conosco: conduzir-nos para Ele.

            Deus abençoe a todos! Feliz dia da Assunção  e uma boa semana a todos!

domingo, 2 de agosto de 2020

Filiação divina


            “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.” Assim começa o Evangelho segundo São João. O Verbo, nós sabemos, é o Filho de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que se encarnou, tornando-se homem como nós. A palavra verbo tem três significações próprias, segundo Santo Tomás: o conceito interior da mente, a palavra proferida significativa deste conceito e a imaginação da palavra, sem ser proferida. Deus, eternamente e num mesmo ato, é e se intelige e esta intelecção gera o Verbo subsistente e da mesma natureza do Pai: é o Filho de Deus, que é também Deus.

            Peço perdão por este início um pouco mais complicado de se entender, mas acredito que possa ser construtivo para nossa reflexão de hoje. Queremos falar da nossa filiação divina e da sua grandeza, da excelência que é ser filho de Deus e, para isso, é bom que ao menos possamos contemplar, com todo o nosso limite e de maneira imperfeitíssima, como se dá a filiação na Trindade, porque, já adianto, é desta filiação que, pelo Batismo, participamos.

            Há diversas maneiras de se ser chamado filho de Deus. De certa forma, todas as criaturas podem ser chamadas filhas de Deus, por analogia de criador-criatura. Mais propriamente o homem, por ser naturalmente imagem de Deus, pode ser chamado desta forma. Mas, pelo Batismo, nós somos inseridos no Corpo de Cristo e temos uma filiação divina ainda mais perfeita que a de Adão antes da queda: somos filhos no Filho de Deus, participamos da maneira pela qual o próprio Cristo é Filho do Pai. E isto é muito grande. Isto é, para nós batizados, objeto de um certo santo orgulho, de grande complacência. O Pai nos adotou como filhos! Deus, o criador de todas as coisas, nos olha como um pai olha seu filhinho pequeno, só que com muito mais amor e muito mais zelo, porque o Pai é infinito. Que grandeza! Como somos grandes! Temos um Pai que nos ama infinitamente!

            Esta filiação deve como que brilhar em nós através do testemunho de nossas vidas, especialmente pela confiança que depositamos no nosso bom Pai Deus. Se eu sei que Deus é meu Pai e que Ele me ama com amor infinito, não tenho motivo para perder a paz ou a alegria em meio aos sofrimentos. Não é para sermos robôs ou anjos que não sofrem ou que não são afetados por nada. Mas, em meio as lágrimas que as circunstâncias de nossa vida possam nos provocar, devemos estar com o coração confiante em Deus. Cristo sofreu e muito na Terra. O vimos chorar por Seu amigo que morreu, por Jerusalém e sua falta de conversão, o vimos cheio de angústia ao saber que estava próxima Sua Paixão, sem falar nela mesma, mas Ele nunca desconfiou da bondade de Deus, nem se entregou ao desespero. Enquanto as partes mais baixas de Sua alma sofriam amargamente, a mais alta tinha uma alegria que nós só vamos conhecer no Céu, e ainda muito imperfeitamente. Assim, imitemos ao Filho de Deus perante as tribulações de nossa vida, porque participamos desta filiação também, para a honra e glória de Deus e para o nosso próprio bem, porque não tem dor pior que a do desespero.

            Alguns de nós, porém, não sofrem por circunstâncias externas, mas internas e essas são, de fato, as mais difíceis de se enfrentar. Às vezes os nossos próprios pecados nos causam um peso tão grande que queremos desanimar, que nos entristecemos ou nos irritamos. O segredo é ainda a confiança em Deus. Ele está sempre pronto para perdoar-nos e não devemos temê-Lo e nem o sacramento da Confissão, que é um tribunal de misericórdia, porque se Deus sofre pela ofensa proferida contra Ele, sofre muito mais por estarmos distantes Dele. Devemos olhar para nossas misérias com extrema confiança e humildade, mas não uma humildade fria e triste, que é muito mais um orgulho mascarado. Não: o verdadeiro humilde fica em paz com sua própria miséria, pois não espera muito de si, conhece sua incapacidade. Não quer dizer que não sofra, mas sofre como que em paz. Assim, nem os nossos pecados devem nos tirar a alegria e a paz próprias dos filhos de Deus. Santos mesmo só o seremos no Céu. Não sejamos, com o perdão das palavras, tão mimados e birrentos ao ponto de, diante de tantas graças e de tantos privilégios recebidos da Providência, como a própria filiação da qual estamos falando e mesmo o estado de graça que os nossos pecados veniais não podem nos roubar, ficarmos tristes e emburrados com as circunstâncias exteriores e interiores, como uma criança que ganha um maravilhoso bolo de chocolate de aniversário, mas se entristece pois a cereja não está bem no centro.

            Sejamos homens e mulheres simples e conscientes da nossa grandeza e da nossa miséria, sem deixar que esta encubra a alegria proporcionada por aquela. Vivamos segundo a nossa condição de filhos no Filho de Deus, imitando cada uma das suas pequenas atitudes. Assim, termino este pequeno texto. Espero ter colocado nas mentes dos meus leitores pelo menos um pouquinho da alegria e da paz que me vêm de saber que sou filho de um Pai tão maravilhoso. Que Nossa Senhora, Nossa Mãezinha aumente em nós a consciência da filiação divina e da filiação que temos para com ela. Deus abençoe a todos!


domingo, 19 de julho de 2020

Os corações

Como se consagrar ao Sagrado Coração de Jesus

            O coração é um órgão corporal presente em muitos animais, inclusive no homem. Mas há também outros sentidos de se falar em coração. Há o sentido de centro espiritual da afetividade humana e também aquele do íntimo do homem, como que o mais profundo de seu ser. Queremos falar hoje deste último caso e de certos tipos de coração que conseguimos encontrar: dois que já conhecemos, o de pedra e o de carne, mas também um outro, que parece estar entre os dois: o de metal. O nosso objetivo deve ser sempre ter um coração de carne, como o de Cristo e como aquele que Deus prometeu a Israel no lugar dos seus corações de pedra. Mas este objetivo é árduo e só pode ser alcançado com o auxílio da graça e, na sua busca, devemos lutar para não desenvolvermos corações de pedra ou, como o que falei, de metal.
            Analisemos, primeiro, a temperatura dos corações. Aquilo que é quente não está preocupado em absorver calor, mas em doá-lo àquilo que está próximo. Assim é o Coração de Jesus: Fornalha Ardente de caridade, como rezamos na ladainha. Ele, a despeito de todo o desprezo que recebe daqueles que está ao seu redor, procura sempre partilhar o que tem com eles, que é a Sua própria vida divina. Conosco é assim, também. Apesar de todos os nossos pecados, de nossa frieza, Nosso Senhor quer sempre dar o Seu calor para nós, partilhar conosco Sua vida. Na física, quanto maior a diferença de temperatura entre dois corpos, maior o fluxo de calor entre eles; e na nossa relação com Deus, quanto mais distantes estamos Dele, quanto mais frio está o nosso coração, mais Jesus quer dar a nós o Seu amor, quer nos fazer participar do amor que Ele tem por Deus Pai. Esta é a caridade, simbolizada pelo calor do coração: o desejo de em tudo agradar a Deus, de tudo referir a Ele. E é esta caridade que o Coração de Cristo quer comunicar àqueles que se aproximam Dele.
            E quanto aos movimentos do coração? O coração bate para dar a vida ao corpo inteiro, trabalhando incessantemente para que não falte sangue a nenhum órgão e que este não venha a desfalecer. O Coração de Cristo é a fonte de vida do Seu Corpo Místico: a Santa Igreja. Ele trabalha incessantemente para levar a graça divina a cada membro do Seu corpo, para que nenhum se separe de Deus, para que nenhum perca aquele calor, aquela caridade de que falamos acima. Jesus não se conforma em apenas desejar aquecer o que está frio, mas Ele trabalha incessantemente para manter aquecidos aqueles que estão em comunhão com Ele.
            O Coração de Jesus não é duro como uma pedra, que se quebra em mil pedaços se for golpeada, deixando apenas poeira para trás. Não: Ele é um coração de carne, do qual, quando golpeado, jorraram sangue e água. É o Coração sensível que encheu-se de compaixão pela morte de Seu amigo Lázaro e pelas misérias de tantas pessoas que encontrou no seu caminho e que continua a encher-se de compaixão pelas nossas misérias. Cada dor Sua teve como resposta rios de misericórdia; cada “pancada” que as misérias alheias lhe davam, devolvia com atos de amor.
           Falamos, até agora, do Coração amabilíssimo de Nosso Senhor, o qual devemos buscar imitar. Mas e quanto aos outros dois tipos? Com um nós já temos certa familiaridade: o coração de pedra. Este é duro, frio e imóvel. Não se preocupa com nada nem com ninguém além de si próprio, não buscando compartilhar nada do que é seu, não movendo um dedo para a edificação daqueles que estão ao seu redor e muito menos se compadecendo das misérias alheias. Deste nós sabemos que devemos fugir a todo custo. Mas o que seria o coração de metal?
            Vejamos como são as máquinas de metal. Elas são frias, embora possam superaquecer em alguns momentos, duras e, diferentemente das pedras, tem um movimento que simula o de algo vivo. Assim são os nossos corações muitas vezes: frios, não querendo partilhar nada com ninguém, apenas receber o que lhes apraz; duros, indiferentes às misérias alheias; e aqui está o que pode nos iludir: movem-se com certa artificialidade semelhante à dos corações de carne. Infelizmente, talvez seja este o estado da maioria dos corações dos cristãos em estado de graça. Não estão completamente mortos, pois para uma máquina se mover é preciso energia, que podemos dizer que seja a graça divina, mas os seus movimentos não são os de homens caridosos que querem em tudo fazer a vontade de Deus. Muitos estão ainda encharcados de amor próprio e o cumprimento da lei para eles não passa de um movimento exterior e artificial, visando sempre fazer o mínimo necessário para a própria salvação e depois dispersar-se no próprio egoísmo. É a triste tibieza. É comum passarem pela inquietação dos escrúpulos, pois, buscando apenas o mínimo necessário, se sentem sempre por um fio de não o terem feito; inquietam-se com o menor “defeito em seus circuitos” ou com o menor amassado na sua carapaça de metal, que geralmente é muito difícil de se consertar por completo, devido a dureza do material, porque estão ainda muito apegados a si mesmos e não tomaram a decidida decisão de entregar a vida a Cristo.
            Como é triste e frustrante a nossa vida quando estamos neste estado... E ao contrário, como é feliz viver só para Deus! Não nos frustramos mais com nossas misérias: a humildade que Cristo partilha conosco nos faz vê-las em paz e pouco olhar para elas, mas mais para Aquele que pode curá-las. Nossos trabalhos e orações não nos são pesados, embora possam ser sofridos, porque a caridade de Cristo que nos impele faz com que queiramos aquilo que Ele quer.
Enfim, torna-se feliz a nossa vida quando visamos somente a Deus. Quando o fazemos, nosso coração se aquece de tal modo que vê Deus em tudo e sua contemplação o faz feliz e desejoso de partilhar com os homens o calor que recebeu de Deus e, por isso, logo se põe a bater forte, trabalhando com ardor no serviço a Jesus e aos seus semelhantes. Também nosso coração se torna capaz de compadecer-se das misérias alheias e quer fazer tanto quanto o possível para consolá-las; inclusive, busca consolar o Sagrado Coração que tanto sofre com as ofensas humanas.
E isto, meus amigos, não é coisa de sentimentos. É, sim, coisa de uma razão iluminada pela graça, que consegue saber o que é bom e agrada a Deus e de uma vontade fortalecida por ela, que se esforça para fazer o que a razão a indica, mesmo que seja doloroso ou que seus sentimentos apontem na direção contrária. Isto é amor. Isto é ter um coração cristão autêntico: buscar agradar a Deus em tudo, esforçando-se constantemente para ser mais amigo de Cristo através do cumprimento da vontade de Deus, que é amá-Lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Não nos inquietemos se ainda não possuirmos este coração de carne... Nem olhemos em demasia para nosso coração duro. Fixemos, antes, o nosso olhar em Cristo, o Médico Divino, para que Ele trabalhe e conserte as nossas misérias. Olhemos incessantemente para a Santa Beleza que é Deus, para que ela imprima Sua marca em nós, transformando o nosso coração em um coração semelhante ao Seu.
Que Deus converta o meu e o seu coração! Recorramos a Nossa Senhora, aquela que tem o Coração mais semelhante ao de Cristo de todas as criaturas, para que ela clame a Deus por nós, a fim de que Ele transforme os nossos corações.

domingo, 12 de julho de 2020

O PURGATÓRIO SEGUNDO SANTA CATARINA DE GÊNOVA E A FÉ DA IGREJA


Santa Catarina de Gênova pode nos ensinar sobre a Conversão? Veja
Santa Catarina de Gênova

Em tempos de pandemia, onde tantos de nós sofremos com a perda de parentes e estamos também sob risco, cabe a reflexão sobre a morte, o estado de nossas almas, das almas dos nossos parentes, e como estamos respondendo às graças que todos os dias Deus nos concede, ao preço altíssimo que Ele pagou por nós: a vida do seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. A meditação sobre purgatório é muito importante porque nos faz refletir alguns aspectos, entre os quais: a pureza e santidade de Deus, na qual nós não podemos permanecer se também não nos esforçarmos para viver uma vida reta e nos purificarmos pelos meios que a Igreja nos oferece; a gravidade do pecado; a misericórdia de Deus e a esperança de alcançar a salvação, pois sem o Purgatório, seria muito difícil chegar ao Céu; a comunhão dos santos; a importância do sofrimento e das penitências nesta vida; a eficácia da Santa Missa para nós e a Igreja padecente.
Purgatório é o lugar ou estado onde vão as almas dos que morrem em graça de Deus, sem haver inteiramente satisfeito por seus pecados, para ser ali purificadas com terríveis tormentos. A Igreja creu sempre que há almas que sofrem e necessitam de sufrágios, e a causa de seus sofrimentos eram os pecados cometidos, os veniais e os pecados mortais já perdoados. Embora a culpa do pecado já tenha sido remida, ainda há as penas temporais que devem ser pagas e estas almas iriam por fim para a glória depois de satisfeitas estas penas. Isto é uma verdade de fé: todas as almas que estão no purgatório alcançarão a glória celeste e tanto só temos esta vida para galgar boas obras e buscarmos a santidade quanto depois desta vida já não poderemos pecar.
Santa Catarina entende o Purgatório ao comparar o estado de sua alma, como consumido por um fogo que a purificava de tudo que havia necessidade, assim também as almas no Purgatório que estão sendo purificadas de toda mancha do pecado. Apesar de abrasada por esse fogo, a santa sentia-se muito feliz pelo bem que ele produzia, e entende que da mesma maneira as almas no Purgatório. Estas estão entregues ao estado em que se encontram, sem se acharem dignas ou indignas de tal estado, só se contentam de estar cumprindo o que Deus em sua grande justiça as impetrou, não tendo preocupações com outros nem consigo, estando imersas na caridade de Deus, sem poder pecar ou acumular méritos para si. A ferrugem do pecado é o impedimento que elas sofrem de não poder estar na presença de Deus, e o fogo do Divino Amor consome este impedimento, e cada vez estão mais próximas à Deus, aumentando o contentamento das almas. Este consumir não diminui a pena dos pecados, mas abrevia o tempo a que estão sujeitas sofrer.
            Santa Catarina afirma que embora, as almas estejam abnegadas em seus estados, sofrem penas indizíveis causadas pelos pecados. A pena que sofrem consiste principalmente, no fato de que se sentem cada vez mais atraídas para Deus conforme a mancha do pecado vai arrefecendo, no entanto como ainda existe este impedimento, elas não podem estar com Ele, o que lhes causa grande dor. Estas almas têm a certeza de que ainda não podem gozar da presença de Deus devido o que ainda precisa ser purificado e isto causa como que um fogo extremo semelhante ao do Inferno, mas sem a culpa. Esta é a pena de dano. Há também a pena de sentido, dores como as que sentimos na vida, embora não se possa dizer claramente como são. A intensidade destas penas é gravíssima, em geral muito maior que a das que padecemos aqui. São Cesário de Arles diz que não se deve contentar com o Purgatório pela certeza de alcançar a vida eterna, porque “o fogo do Purgatório será mais duro que quantas penas se podem ver, pensar ou sentir”.
Com a vontade unida a Deus e a ausência de culpa, as almas no purgatório podem ver a Deus conforme Ele as concede e entendem claramente que o seu fim último é estar com Deus. A santa dá o exemplo do pão único, como se só houvesse um pão que pudesse alimentar todos os homens, e estivessem impedidos de comê-lo, mas não morressem ou adoecessem, estariam sempre desejosos deste pão, com cada vez mais fome, mas ainda incapazes de experimentá-lo. Santa Catarina diz que é grande a misericórdia para estas almas haver o Purgatório onde podem se purificar, pois muito se deve o seu sofrimento em saber que há grandes males em si, cometidos voluntariamente contra Deus que é todo bondade e amor para conosco. O fogo que Deus a submete é capaz tanto de purificar quanto de aniquilar a alma, aniquilá-la em si mesma até a perfeição, onde ocorre uma purificação passiva que retirará todas as más inclinações e restaurará o estado perfeito em que foi criada.
O que devemos fazer pelas almas do Purgatório é continuamente oferecer sufrágios por elas para que se atenuem as penas, sendo as nossas orações, penitências e boas obras oferecidas à Deus, sendo da parte Dele dispor destes sufrágios com seu juízo infalível e grande misericórdia. O oferecimento de Santas Missas pela alma dos fiéis que se encontram no Purgatório é o bem maior que podemos fazer por elas. A Santa Madre Igreja também nos oferece a possibilidade das indulgências, que possibilitam a remissão parcial ou plena das penas temporais, sendo uma graça derramada pelas satisfações infinitas obtidas por Cristo e pelos santos.
Os meios para evitar o Purgatório são, primeiramente, evitar com todo o esforço o pecado (Santa Teresa diz “em aposento onde entra tanto sol, não há teia de aranha escondida”), fazer muitas penitências aqui, onde podemos obter grande satisfação por nossas culpas e aumentar nossos merecimentos para o Céu, viver a caridade pelas obras de misericórdia, perdoar as injúrias sofridas, as indulgências, a Eucaristia e a Confissão, sendo a penitência sacramental de maior valor que qualquer penitência de natureza privada, e a devoção à Santíssima Virgem Maria que se manifesta entre tantas práticas, principalmente, pela oração do rosário e o uso do escapulário do Carmo. Há também uma devoção pouco conhecida chamada Coroa ou Terço de São Miguel Arcanjo. Ela foi ensinada pelo próprio arcanjo a uma religiosa portuguesa no século XVIII e este prometeu que quem a rezasse todos os dias teria para si e para os parentes a libertação do purgatório.
Os tempos que se apresentam devem ser para todos nós de grandes intercessores pelas almas que padecem no Purgatório. Infelizmente, pouquíssimas pessoas se esforçam para viver uma vida cristã. Rezemos por elas e sejamos fiéis, nos esforçando com uma vida reta, sacramental, sem duplicidade, com penitências e mortificações, e confiando na graça de Deus que sempre nos socorre, para permanecermos com Ele e chegarmos ao estado de perfeição a que Ele nos chama: “sede santos porque eu sou santo”. Só temos o hoje!

Texto baseado no livro Tratado do Purgatório de Santa Catarina de Gênova.

domingo, 5 de julho de 2020

Música Litúrgica


História de Santa Cecília - Santos e Ícones Católicos - Cruz Terra ...
            A música estava intimamente ligada com a nossa fé desde as primeiras comunidades cristãs. Na carta de São Paulo aos Efésios, o Apóstolo de Cristo exorta a comunidade: “falai uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e em tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef. 5, 19-20). É interessante o fato de o Apóstolo colocar o coração como o lugar de dar graças a Deus, cantando e louvando. Longe de qualquer euforia exterior, na Santa Missa, o nosso coração deve ser um verdadeiro templo de ação de graças.
Queridos irmãos músicos, quando exercemos o serviço dentro da liturgia, precisamos ter esclarecido no nosso coração a sua finalidade. O Papa João Paulo II, ao escrever um Quirógrafo em comemoração ao centenário do Motu Proprio Tra Le Sollecitudini, lembra que “São Pio X apresenta a música como um meio de elevação do espírito a Deus, e como ajuda para os fiéis na participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”. Papa João Paulo II, quer nos lembrar pelas palavras de São Pio X, que a música causa um impacto tão grande na alma que ela pode ser meio de elevação do espírito, ou seja, a música pode ajudar a quebrar o “gelo do nosso coração”, e ainda mais: a música é capaz de atingir até mesmo as almas tíbias. Além disto, a música na liturgia precisa proporcionar “a participação ativa dos fiéis”, essa participação não pode ser resumida ao simples fato da assembleia saber o canto, isto seria diminuir o que realmente a Igreja nos propõe. Devemos entender que no fato de o fiel ouvir e interiorizar a PALAVRA que está sendo CANTADA e alcançar uma verdadeira contrição e assim render graças a Deus em seu coração, a música na liturgia atinge o seu objetivo. É importante este esclarecimento, pois podemos cair no engano de achar que o fiel só está participando ativamente se este souber acompanhar todo o canto. Na Santa Missa, a escuta é uma forma de participação.
A liturgia tem como objetivo a “Glória de Deus e a santificação e a edificação dos fiéis”. Tendo em mente e guardando no nosso coração esta verdade, é necessário muito discernimento para a escolha dos cânticos e nunca perder de vista o objetivo da sagrada liturgia. Mas, como podemos dar glórias a Deus e ajudar na edificação dos fiéis? É importante, caros irmãos, entendermos que na Santa Missa celebramos o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, logo, o primeiro passo é escolher um repertório que não obscureça o caráter sacrificial que celebramos, é de suma importância manter a serenidade. Outro problema comum que ocorre em nossas igrejas é o barulho excessivo. Devemos ter cuidado! Vivemos em um mundo extremamente barulhento e precisamos seguir o exemplo de Nosso Senhor que se retira para lugares silenciosos para ter maior intimidade com o Pai. Queridos irmãos músicos, nós não podemos tirar o direito dos fiéis de escutar a Deus no silêncio, devemos ter cuidado com o volume dos microfones e instrumentos, além de evitar ficar “passando o som” poucos minutos antes da Missa, pois precisamos respeitar os fiéis que tem o valioso habito de rezar antes da Celebração Eucarística.
Outra atitude importante para o bom serviço é a pontualidade dos músicos. Marque com o seu ministério tempo o suficiente para passar o som, organizar os lugares, afinar o instrumento, rezar, e ainda sobrar bons minutos para se guardar o silencio para melhor concentração do grupo. Caro irmão, você também tem uma alma! Não deixe de viver a Santa Missa por conta do serviço. É claro que quem canta sofre certas aflições até mesmo por imprevistos que acontecem, porém, com organização antecipada, podemos diminuir esses imprevistos e melhorar a qualidade de nossa oração.  
Acrescentar mais eficácia ao texto é outra característica da música litúrgica relembrada no quirógrafo do Papa João Paulo II. Isto significa que para a Santa Missa, a música não pode destacar a si mesma, então devemos ter cuidado com harmonias e ritmos exagerados. É bom que a estrutura das músicas cantadas nas Celebrações Eucarísticas respeite uma hierarquia na seguinte ordem: melodia, harmonia e ritmo, pois quando a harmonia ou o ritmo ultrapassam a melodia, o texto que está sendo cantado corre o risco de ser ofuscado. Algumas músicas até mesmo tecnicamente difíceis, nem sempre se encaixam no contexto do rito, podendo atrapalhar a compreensão da Palavra. Outra coisa com que devemos ter cuidado - e todos nós músicos estamos expostos a este sentimento - é o estrelismo. Vou explicar melhor... Todos nós podemos cair na tentação de escolher certos repertórios não para cantar a PALAVRA, mais apenas para cantar uma música que a “minha voz seja exaltada”. Irmãos, nós músicos estamos expostos a pecados como a vanglória e o orgulho, para combatermos, devemos sempre ter em nosso coração a vontade do serviço, dedicando as nossas forças para a finalidade da liturgia, por isto, não descuide da vida de oração! Devemos sempre pedir a Deus a graça da humildade.
No texto passado, falei que o Canto Gregoriano é o canto oficial da Igreja. Talvez você nem saiba o que é o canto gregoriano. Convido você a tirar um tempo para escutar este estilo. Indico a Missa Orbis Facto. Perceba como o texto é valorizado e como a melodia está totalmente submissa ao texto. No Motu próprio Tra Le Sollecitudini de Pio X, prescreve-se que “uma composição religiosa será tanto mais sacra e litúrgica quanto mais se aproxima no andamento, inspiração e sabor da melodia gregoriana”. Algumas pessoas podem questionar se a Constituição Sacrosanctum Concilium não modificaria isto e a resposta é NÃO. Na Sacrosanctum Concilium o Canto Gregoriano continua como o canto oficial da Igreja, e isto se confirma no Quirógrafo escrito pelo Papa João Paulo II (pós-concilio). Outra dúvida que possa surgir é: “só pode ser cantado o canto gregoriano na Missa?” e a resposta também é NÃO. O que a Igreja nos orienta é que o canto se aproxime do estilo gregoriano. Para lhe ajudar a escolher o seu repertório, gostaria de destacar três características do canto gregoriano: a primeira é a primazia da PALAVRA, a segunda e a terceira são a leveza e a serenidade das melodias.
Caros irmãos espero ter vos ajudado a entender mais sobre a finalidade da música na liturgia. Agradeço a Deus por cada pessoa que se dedica a este serviço e peço a graça para que nós músicos, possamos ajudar a música litúrgica alcançar a sua finalidade. Deus vos abençoe!
Por Taynara Sousa

São José na Sagrada Escritura

  São José é mencionado nos Evangelhos apenas 14 vezes, em cerca de 43 versículos (Mt ...